— Me solta, seus desgraçados! Vocês não sabem com quem estão mexendo!
Acordei com a gritaria.
A cabeça latejava e a ânsia de vômito era insuportável — uma combinação do que quer que tivessem usado no pano com os hormônios que já estavam me castigando havia semanas. Levei alguns segundos para entender onde estava, e mais alguns para entender o que estava acontecendo.
Um quarto pequeno. Cama de casal que ocupava quase todo o espaço disponível, com um colchão fino e um lençol que cheirava a mofo. Janela com grades tampadas por tapume de madeira. Uma lâmpada fraca no teto, piscando com aquela irregularidade de coisa que está quase no fim e não sabe quando vai desistir de vez.
— Me deixa sair, me solta agora!
Eu não conhecia nada ali. Exceto a garota se esgoelando enquanto espancava a porta de madeira tomada de cupim com as palmas das mãos, os cabelos desgrenhados e a saia Chanel manchada de café já completamente esquecida.
— Cala a boca — murmurei, me sentando devagar para não provocar mais náusea do que já estava sentindo.
— Meu irmão é advogado, ele vai acabar com vocês!
— Cala a boca! — disse mais alto, desta vez com firmeza suficiente para ela me ouvir.
Alícia parou de bater na porta por um segundo e me olhou como se eu fosse o problema. Depois, me ignorou, e voltou a espancar a porta.
— Pena de morte! É isso que vocês vão ter se encostarem um dedo em mim! Pena de morte!
Soltei uma risada curta, involuntária, que doeu na cabeça.
— Não existe pena de morte no Brasil.
Alícia se virou para mim completamente dessa vez, com a expressão de quem está revoltada com o mundo inteiro e eu fazia parte desse mundo por osmose.
— Você viu a cara daqueles brutamontes? Tem cara de gente burra.
— Cara de gente burra — repeti, olhando para ela. — Como é cara de gente burra?
— Aquele tipo de cara! — Ela apontou vagamente para a porta antes de se virar de volta e gritar com ainda mais convicção. — PENA DE MORTE!
— Alícia. — Falei com toda a calma que eu conseguia reunir. — Cala a boca. Não provoca quem você não conhece.
— Faço o quê então? — Ela jogou os braços para o lado, exasperada, a voz quebrando entre a raiva e alguma coisa que se parecia muito com medo. — Fico deitada nessa cama dormindo igual a você?
— Você prefere levar um tiro na cabeça para eles te fazerem ficar quieta?
Ela abriu a boca. Fechou. O nariz enrugou apenas um milímetro — aquele gesto mínimo dela de quando sabe que estou certa mas preferia não saber. Veio se sentar ao meu lado na cama com uma relutância silenciosa de quem cedeu mas não vai admitir.
— Precisamos sair daqui — ela disse, em tom completamente diferente. Mais baixo. Mais real. — Onde é aqui?
— Não faço ideia.
Me levantei devagar, fui até a janela e tentei forçar a barra de madeira. Empurrei, sacudi, tentei encontrar alguma folga. Eu sabia que não iam nos colocar num lugar com uma rota de fuga tão óbvia — mas precisava ver o que havia do lado de fora. Reconhecer alguma coisa nos arredores. Qualquer detalhe que me dissesse onde estava e, consequentemente, quem eram essas pessoas.
— Já fiz isso. — A voz de Alícia veio de trás, seca e sem esperança.
Um homem surgiu — não era o mesmo do beco. Mais velho, rosto aberto, sem nenhuma preocupação em se esconder. Isso não era bom. Quem não esconde o rosto geralmente tem a certeza de que a outra pessoa não vai causar problemas depois. Talvez porque pretenda matá-la.
Alícia, completamente surtada, se levantou da cama e correu em direção a ele gritando alto como se fosse um grito de guerra. Ele a deteve com uma mão só, sem esforço, e a empurrou de volta. Ela caiu sentada no chão com um baque, olhando para cima com a expressão de alguém que subestimou a física.
Balancei a cabeça devagar.
— Não enrola — o homem disse para mim, abrindo passagem e segurando meu braço.
O banheiro era minúsculo, com cheiro de umidade. Janela basculante pequena, gradeada — mas sem tapume. Entrei, fiz o que precisava fazer, e enquanto estava lá me aproximei da janela e olhei pelo que o basculante permitia ver.
— Mija logo! — ele gritou do lado de fora, espancando a porta.
Saí. Fui guiada de volta. A porta foi trancada.
Alícia estava sentada na cama, me olhando sem expectativa nenhuma.
— Sei onde estamos — disse.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Ótimo. E como fugimos daqui?
— Ah, não fugimos — disse com uma certeza que eu preferia não ter. — Não tem como sair daqui.

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