— Você é meio puta...
— Eu sou completamente puta! — Alícia me corrigiu, sem hesitar.
Caímos na gargalhada juntas. Uma risada que saiu mais alta do que eu esperava, ecoando naquele quarto pequeno de um jeito que parecia errado e certo ao mesmo tempo.
Depois paramos, quase simultaneamente, nos olhando com aquela consciência incômoda de duas pessoas que percebem que estão sendo cordiais uma com a outra quando a narrativa inteira delas dizia que não deveriam ser.
Ficou um silêncio estranho. Não o silêncio tenso de antes, mas o silêncio de quem não sabe bem o que fazer com o território novo em que acabou de pisar.
— Por que você não gosta de mim, afinal? — perguntei.
Alícia me olhou como se a pergunta fosse óbvia demais para merecer resposta.
— Você ainda pergunta?
— Pergunto.
— Você é melhor do que eu em tudo.
Eu ri. Uma risada seca, involuntária.
— Eu sou melhor do que você? Por favor. Arrume uma desculpa melhor.
— Você é sempre o número um da turma. Eu sou o número dois, quando muito. — Ela disse isso com a monotonia de quem está recitando uma lista que decorou há tempo demais. — Os professores te amam. Os garotos babam por você e por esse seu jeito... — Ela me olhou de cima a baixo antes de escolher a palavra. — Exótico. Todo mundo tem sempre algo bom para falar da perfeitinha da Zara.
— Para! Estou longe de ser perfeita. E duvido que sua raiva de mim seja por causa disso. Você me odeia.
— Eu não te odeio. — Ela desviou o olhar por um segundo. — Eu só... tenho inveja de você.
— Inveja de mim? Da favelada?
— Sim. — A resposta saiu sem cerimônia. — Da garota que minha mãe vivia dizendo que eu precisava superar, mesmo antes de saber quem você era. Porque eu precisava ser a melhor em tudo. A melhor aluna, ter o melhor emprego no melhor hospital, ser a melhor médica. Honrar o nome da família. — Ela pausou. — E essa garota que eu não consigo superar é quem? Só uma favelada.
Fiquei olhando para ela por um segundo.
— Isso foi ofensivo em vários níveis.
— Tome como elogio. — Ela suspirou com aquele cansaço de quem carrega peso demais há tempo demais. — Não sou de fazer muitos. E agora sou a ovelha desgarrada da família, porque sou só uma futura médica bem mediana que nem serve para arrumar homem. Palavras da minha mãe.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, sem saber exatamente o que fazer com aquilo.
Não era o que eu esperava ouvir. Mas, no fim, eu sabia o que ela estava fazendo. Eu não era a única com medo de morrer carregando coisas.
Tinha sido ela?
Eu tinha me virado para a Claire quando percebi que o vestido tinha chegado errado. E a Claire tinha negado com aquela raiva de quem está sendo acusada de algo que não fez — uma raiva que eu tinha acreditado porque era autêntica demais para ser performance. E se a Claire realmente não tinha feito... então alguém com acesso àquele processo, com contatos suficientes para interferir na entrega de um Vera Wang Haute, tinha sabotado meu vestido de noiva.
Alguém que estava lá. Que sabia de tudo. Que tinha a chave certa para cada fechadura.
O enjoo piorou enquanto os pontos iam se ligando, um a um, com aquela crueldade específica das revelações que chegam tarde demais — quando você olha para trás e percebe que as pistas estavam todas lá, e que você as ignorou porque a pessoa que as plantou também estava plantando a sua confiança ao lado delas.
Genevieve tinha tentado impedir meu casamento antes de ele acontecer. De formas diferentes, em momentos diferentes, sempre com uma justificativa que soava razoável. E quando não conseguiu, passou a trabalhar depois. Com o envelope no cofre que provavelmente ela queria que eu visse quando me pediu para guardar a joias. Com a gravidez que ela me mandou esconder de Arthur. Com as várias insinuações de que Arthur me julgaria como golpista.
Mas se ela estava tendo um caso com Arthur, por que todo o teatro? Se ela queria ser a número um na vida dele, por que não simplesmente deixar o casamento desmoronar sozinho?
Porque ele não desmoronaria. Porque Arthur respeitava aquele contrato, aquele legado, aquela promessa que ligava as duas famílias. Porque ele era exatamente o tipo de homem que cumpria o que assumia, mesmo quando não queria. E a Genevieve sabia disso melhor do que qualquer pessoa. Porque se tinha uma coisa da qual ela se orgulhava, era de conhecer bem Arthur.
— Ela fez isso com você? — perguntei, olhando para Alícia. — Se fingiu de sua amiga para estragar sua vida?
Alícia ficou quieta por um segundo. Olhou para as mãos no colo.
— Ela me fez sofrer um aborto.

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