Na sala de estar da antiga mansão da família Bacci, o Velho Bacci estava jogado no sofá com um petisco apimentado na boca, as pernas cruzadas com toda a desenvoltura do mundo.
"Então leia em voz alta," ele disse, mastigando devagar.
"Como será que se sente ver o herdeiro da família Bacci afundar no próprio lixo?"
Havia uma ironia afiada naquelas palavras. Em sua juventude, a mãe de sonhou em ser a matriarca do ramo principal — e conseguiu dar à luz antes de todas as outras. Agora, na velhice, era o próprio filho quem a arrastava para baixo.
Rodolfo mal conseguia esconder a satisfação. Até a forma como chamava Marco Paulo tinha mudado — o nome saía diferente, carregado de desdém.
Antes que alguém pudesse responder, Natasha virou a cabeça de repente. O rosto estava fechado.
No fundo, ele sabia que Natasha tinha razão. Marco Paulo ainda estava solto, ainda andava por aí como se nada tivesse acontecido — o que significava que a polícia ainda não tinha o que precisava para prendê-lo de verdade. Era cedo demais para festa.
Mas provocar um pouco... isso ninguém tirava dele.
Rodolfo se levantou, enfiou os polegares no cinto com aquela pose de quem manda, e deixou os dedos deslizarem preguiçosamente pela mesa de centro bagunçada.
Seus olhos pararam numa cobra de borracha.
Tinha sido comprada pelo filho ilegítimo uma dessas quinquilharias sem graça que custavam centavos.
Rodolfo pegou o brinquedo, enrolou-o nos dedos algumas vezes, achou aquilo tudo uma bobagem e jogou direto no colo de Marco Paulo.
"Guarda isso com carinho. Talvez em breve você não consiga comprar nem uma dessas."
A cutucada era óbvia — e cruel. Estava dizendo, sem rodeios, que os dias de Marco Paulo esbanjando dinheiro tinham chegado ao fim.
*Mas uma boa zoação tem que ter estilo.*
Marco Paulo nem piscou. Pegou a cobra de borracha tranquilamente e a colocou de lado, como se o comentário não tivesse existido.
"Você tem sorte," ele disse, a voz neutra demais para ser inocente. "Se fosse a sua namorada no lugar da dela, você estaria exatamente na mesma situação que eu hoje."
Um segundo. Dois segundos.
Rodolfo processou o que acabara de ouvir — e quando entendeu o recado, o sangue subiu direto para a cabeça.
"Que absurdo é esse?! Fala de novo, eu quero ouvir!"
*Com uma frase só, o idiota tinha ofendido três pessoas: Maison, a cunhada e Natasha.*
Rodolfo estava tão fora de si que as palavras saíam tortas: "Só um ser sem vergonha como você seria capaz de ficar obcecado pela mulher do outro! Some daqui! Some!"
Ele respirou fundo, ainda agitado. A simples ideia de comparar Natasha com qualquer coisa ligada àquela situação já era suficiente para fazer seu estômago revirar.
"Não projete seus podres em mim. Mesmo que eu gostasse de alguém—" ele pausou, escolhendo as palavras com cuidado, "mesmo que essa pessoa fosse casada com um amigo meu, jamais faria uma coisa dessas. Jamais."
Porque o que Marco Paulo fez não era só falta de caráter. Era falta de respeito pela vida humana — pura e simples.
Rodolfo se virou para Natasha, a expressão finalmente cedendo para algo mais cansado do que irritado.
"Vamos embora, amor. Já não aguento mais ficar aqui."
*Esse lugar estava sufocando.*
Principalmente quando seus olhos caíam no rosto fechado de Marco Paulo— sereno demais, calculista demais — e ele imaginava cobras. Literalmente. Sonhava com cobras enrolando nele.
Natasha se levantou sem dizer nada.
Ela estava de sobretudo escuro e botas pesadas, e quando passou por Marco Paulo, parou. Um segundo. Depois desferiu um chute certeiro.
Marco Paulo nem se moveu.
Natasha não se importou. Ela se endireitou, olhou para ele de cima a baixo, e disse com uma calma que cortava mais do que qualquer grito:
"Isabela é minha melhor amiga. Se você ousar chegar perto dela de novo, não me culpe pelo que vou escrever sobre você na internet — e eu tenho muito seguidores pra isso não ser uma ameaça vazia."
Não era exagero. Natasha era um nome respeitado no mundo da moda, com uma audiência fiel de centenas de milhares de pessoas. Se não fosse pela consideração que ainda nutria pelos mais velhos da família Bacci, ela já teria dito tudo o que pensava há muito tempo.
Para ela, Marco Paulo já tinha um rótulo: destruidor de lares. Ponto final.
Marco Paulo continuou imóvel, como se o chute tivesse passado por ele sem deixar marca. Quando falou, a voz saiu baixa e cansada:
"Você não entenderia."
Natasha soltou uma risada curta — não de humor, mas daquele jeito de quem já ouviu desculpa demais.
"Não me diga que você está tentando convencer alguém de que realmente ama a Isabela?"
Silêncio.
Natasha sacudiu a cabeça.
"Se você realmente amasse ela, não conseguiria suportar vê-la infeliz." Ela encarou Marco Paulo sem desviar o olhar. "O que você fez não é amor. É possessividade. É egoísmo disfarçado de sentimento."
A sala ficou completamente quieta.
Dava pra ouvir o vento lá fora.
Natasha se virou e saiu sem olhar para trás.
Rodolfo ficou olhando para a esposa por um segundo — aquela mulher que acabara de acertar em cheio onde doía mais, sem levantar a voz nem uma vez — e sentiu um arrepio misturado com admiração pura. Tocou o próprio peito, como se precisasse se certificar de que estava bem, e saiu atrás dela rápido.
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A sala de estar foi ficando vazia até sobrar só Marco Paulo.
Ele ficou parado por um longo momento.
*Será que tinha errado desde o começo?*
Quando Catarina morreu, a ideia era usar aquilo como uma ferramenta — uma prova de que a relação de Isabela com Maison era frágil, que não resistia a questionamentos. Afinal, um amor que pode ser abalado por palavras não é lá grande coisa.
Mas depois ele descobriu que tinha em mãos o único antídoto existente para o veneno no sangue dela. E aí algo dentro dele virou. Ele começou a usar aquilo como moeda de troca, como pressão, como controle — qualquer coisa para mantê-la perto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Herdeiro Oculto: O Arrependimento do Bilionário
Poderia desbloquear esse capítulo...
Difícil, muda os nomes entra cenas sem pé nem cabeça, primeira vez que vejo erros tão grosseiros. E pagar moedas pra isso, é terrível. Fica mais caro que um livro comum, ainda nesses que todos os capítulos são bloqueados. Uma pena, o Site, tá ficando muito ruim,não ta mais barato que os outros ss o serviço é ruim, fica até pior....
Espero que amanhã o capítulo 122 esteja desbloqueado...
Por favor libera os capítulos, 106 bloqueado sacanagem...
Difícil ler esse livro, estou no 106, e está bloqueado, nem dá prazer em compartilhar para outra pessoa,pq não deixa o livro desbloqueado? Garanto que vcs vão lucrar mais , pois as pessoas ficam desesperada para ler...