As palavras soaram como uma pergunta, mas traziam o tom de uma afirmação.
Cora baixou os olhos, permanecendo completamente em silêncio.
Mas isso significava que estava admitindo a teoria dele.
— Desde quando consegue enxergar? Por que não me contou? — perguntou ele de forma serena, sem aparentar irritação.
Com os olhos ainda fixos para baixo, ela respondeu:
— À noite, a visão voltou de repente.
Ele resmungou uma afirmação:
— Que bom. Daqui a dois dias voltaremos para Lagoa Cristalina, então mandarei o médico fazer um check-up completo.
Cora parecia não ter absorvido a fala, apenas continuava a fitá-lo em silêncio.
Seus olhares se colidiram no ar.
— Tem algo mais? — Bernardo insistiu.
Ele esticou o braço, tocando na pele de Cora.
No mesmo instante, ela repeliu a mão dele com brusquidão.
Era completamente diferente de antes.
Enquanto sofria da amnésia, o convívio com ele era apenas permeado por uma aflição silenciosa.
Era distinto do terror sem sentido de quando não se lembrava de nada.
Agora, era pura repulsa.
Diante dos questionamentos de Bernardo, Cora não esboçou nenhuma resposta.
Ficou apenas a observá-lo, como se pesasse as suas palavras em pensamento.
— Cora — ele chamou o nome dela de repente.
O tom carregado na voz dele serviu de alerta, como um mau presságio.
Ela, por sua vez, continuava muda, passando o controle da conversa para ele.
Após um breve momento, ele tentou extrair a verdade:
— Você se lembrou do que aconteceu antes?
Era apenas uma provocação.
Apesar da confirmação da cura da cegueira,
Ele não previra que ela descobriria a farsa.
Mesmo que, naquela hora, ele tivesse a mais absoluta convicção de que ela ainda não enxergava.
Sendo assim, como ela teria deduzido aquilo?
Ela não se incomodou com o silêncio dele, preferindo perfurá-lo com um olhar calmo e gélido.
— Quando desci, ouvi sua conversa com o médico ao telefone — prosseguiu em ritmo pausado. — No início, fiquei na dúvida e pensei que poderia ser um delírio meu.
Soltando uma risada de desprezo próprio, comentou:
— Afinal, você tem sido impecável comigo e me tratado com carinho. Contudo, jamais esperei que essa fosse a realidade.
— Você achou que, ao perder a memória, eu me tornaria uma marionete em suas mãos, sem nenhuma chance de reação, não achou?
— Ou acreditou que, se conseguisse despistar a Família Colombo e me levasse para Lagoa Cristalina sob falsos pretextos, nada mais seria um obstáculo?
O tom de voz de Cora foi se tornando mais agressivo, à medida que encurralava Bernardo com suas acusações.
— Por isso você não pode sair de imediato, já que sabe muito bem que Daniel está bloqueando as saídas e revirando tudo atrás de nós.
— Então decidiu forjar uma identidade falsa para mim, a fim de garantir uma rota de fuga segura, não foi?
Ela havia desmascarado toda a conspiração que ele armara de maneira simples e cirúrgica.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Encurralada pelo Meu Ex-Marido Obsessivo
Não entendi nada pq o diálogo dessa negociação mudou para essa linguagem nórdica....