Mas revivendo tudo o que acontecera durante aqueles dias,
a ternura e a atenção de Bernardo ficavam evidentes.
Cora não conseguia entender qual era o propósito dele por trás de tudo aquilo.
Se fossem inimigos, não faria mais sentido se ele quisesse acabar com ela?
Incapaz de resistir, ela mergulhou em seus pensamentos.
Contudo, percebeu que, ao forçar a mente, a dor de cabeça voltava.
No fim, fora ela mesma quem se colocara em um beco sem saída.
Diante disso, decidiu permanecer calada.
Fechou os olhos, buscando descanso e paz de espírito.
Bernardo permaneceu ao seu lado sem dizer uma palavra.
Ambos já estavam acostumados com essa rotina e convívio pacífico.
Entretanto, as memórias que vagavam por sua mente também, surpreendentemente, começaram a clarear.
Diferente do vazio completo de antes, as lembranças iam ganhando forma.
Fosse pela recuperação visual ou por algum outro fator,
ao encarar o rosto de Bernardo,
ela ficou completamente muda.
Um turbilhão de memórias inundou sua mente.
E, aos poucos, foi se lembrando de tudo.
Da sua verdadeira relação com ele.
Dos rancores que compartilhavam.
E dos motivos pelos quais acabara ali, cega e sem memória.
O peso daquela realidade era mais do que conseguia digerir no momento.
Ela ficou ainda mais contida.
Não havia mais dúvidas: a conversa que escutara no outro dia não fora uma ilusão.
O fato era que Bernardo queria mantê-la amnésica a qualquer custo.
Foi por isso que havia colocado medicamentos no leite.
Afinal, o médico fora claro ao dizer que as memórias retornariam assim que o coágulo sanguíneo na cabeça desaparecesse.
A perda de memória era algo temporário.
Ele estava planejando levá-la embora?
Ela não conseguia decifrar os planos de Bernardo.
Nem tampouco tinha vontade de tentar.
Manteve a postura serena e impenetrável por fora.
Sua maior aflição, no entanto, recaía sobre Noelia.
Lembrou-se do surto aterrorizante que a menina tivera naquele dia.
Cora sabia perfeitamente as consequências daquilo.
No horário de sempre, Bernardo lhe disse para ir deitar.
Mas agora, com a claridade das memórias,
a repulsa de Cora por ele se tornava evidente.
Seu instinto a compelia a se esquivar.
Especialmente durante as noites silenciosas, quando ele a puxava para um abraço na cama.
Cora não conseguia mais suportar.
Ela necessitava de algo para acalmar os nervos.
Não conseguia mais mentir para si mesma.
— Não consegue dormir? — ele murmurou no seu ouvido.
Ela se remexeu nos braços dele, mas preferiu não responder de imediato.
Bernardo escureceu o olhar e a observou de perto.
Cora não tentou fugir.
Mas algo nela havia mudado se comparado aos dias anteriores.
Pois o brilho da visão retornara aos seus olhos.
E isso...
Fez com que Bernardo pausasse antes de fazer uma pergunta direta, em voz baixa:
— Cora, você está me enxergando?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Encurralada pelo Meu Ex-Marido Obsessivo
Não entendi nada pq o diálogo dessa negociação mudou para essa linguagem nórdica....