Era, na verdade, um ódio que corroía até os ossos.
Aquilo o fez ter uma sensação estranha e perturbadora.
A de que Adelina, no fim das contas, era quem tinha motivos para agir contra a outra.
Bernardo baixou os olhos, observando Adelina em silêncio.
O olhar dele a deixou um pouco tensa.
Mas, na superfície, ela não deixou transparecer nada.
— Você odeia tanto assim a Cora? — Bernardo perguntou a Adelina.
— Antes, eu não a odiava. — Adelina respirou fundo antes de responder a ele, palavra por palavra.
— Mas como eu poderia não odiá-la agora? Ela tomou o lugar que deveria ser meu por direito. E se fosse só isso, tudo bem.
— Mas ela destruiu a vida do meu bebê, e eu não posso simplesmente aceitar isso.
— Enquanto isso, ela pode continuar a gestação e dar à luz o seu filho com toda a tranquilidade do mundo.
— Enquanto houver uma criança, sempre haverá um elo entre vocês dois. O bebê sempre vai procurar pela mãe no futuro.
— Diante de tudo isso, você espera que eu goste dela? Se eu não ficasse furiosa com a Cora, acho que eu é que seria anormal, não concorda?
Adelina discursou com um tom carregado de tristeza, fixando os olhos em Bernardo.
Havia uma camada profunda de decepção estampada no fundo de seus olhos.
E aquelas palavras foram proferidas com tanta emoção e sinceridade...
As suspeitas de Bernardo começaram a se dissipar gradualmente.
Pois, afinal, o argumento dela era perfeitamente coerente.
— Eu só estava perguntando. Seja boazinha e não fique criando caraminholas na cabeça, o mais importante agora é que você cuide bem de si mesma. Deixe o resto comigo.
Bernardo lhe fez uma promessa:
— Eu não vou acobertar os erros dela, e como você mesma disse, a justiça lhe dará uma resposta imparcial, está bem?
O tom de Bernardo se tornou afetuoso.
Aninhada no peito dele, Adelina murmurou um pesado som de concordância.
— Bernardo, fica comigo, por favor? Quando você não está por perto, eu sinto tanto medo. — Adelina implorou a ele.
— Tudo bem. — Sob aquelas circunstâncias, Bernardo não foi capaz de recusar.
Seja por ter exaurido suas energias durante o surto anterior ou por qualquer outro motivo...
Adelina não demorou muito a pegar no sono.
Bernardo esperou até que ela estivesse completamente adormecida antes de se levantar para sair.
No entanto, ela não estava em um sono profundo.
Ao menor movimento dele, ela percebeu sua partida.


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