Embora Hortência não tivesse permitido que Sérgio dissesse muito, o coração de Glaucia se acalmou.
Graças à voz de Sérgio, confirmaram que ele e Hortência estavam juntos. Rastreiando o sinal, encontrariam seu paradeiro.
Glaucia e Caio trocaram um olhar. Ela respondeu:
— Estou indo para lá agora. Não aja de maneira precipitada, não machuque o Sérgio.
A voz de Hortência, no entanto, ficou mais estridente:
— Espere um pouco. Você está com Ícaro? Leve ele junto com você. Apenas vocês dois.
O pedido deixou Glaucia intrigada.
Sendo algo direcionado contra ela, por que Hortência queria Ícaro também? Não tinha medo de complicações imprevistas?
— O que você quer exatamente? — Glaucia continuou questionando, numa tentativa de prolongar o tempo.
Quanto mais tempo a chamada durasse, com mais precisão a polícia rastrearia Hortência.
— Não se preocupe. Faça o que mandei e, quando chegar, descobrirá. — Hortência falou. — Eu não tenho muita paciência para esperar. Meia hora. Se as minhas pessoas não virem você em meia hora, pode esquecer a ideia de ver seu filho de novo.
Havia um tom suicida na voz de Hortência.
Dessa vez, não deu chance a Glaucia de falar e desligou a ligação.
Naquela manhã, Ícaro fora ao Grupo Marques e Glaucia não tivera tempo de informá-lo da situação.
Ela ligou às pressas para Ícaro, contou resumidamente o que aconteceu e dirigiu rumo à fábrica abandonada que Hortência ordenara.
Caio e Dália rumaram para outro local.
Quando Glaucia chegou à entrada da fábrica, Ícaro já estava lá. Seu rosto transparecia ansiedade e arrependimento evidentes.
Não era momento para lamentações. Glaucia ligou novamente para Hortência:
— Já chegamos. Você já pode nos dizer o que quer, certo?
Hortência respondeu:
— Glaucia, vá até o último armazém lá no fundo. Não desligue o telefone. Quero ouvir o que se passa aí.
A voz de Hortência estava cada vez mais alucinada, como se estivesse aguardando por algo.
Glaucia não desfez o cenho franzido, embora fosse vantajoso não desligar a chamada. Assim, ela poderia ouvir os sons vindo do lado de Hortência e confirmar quando Sérgio fosse resgatado.
A fábrica fedia a um estranho odor de gasolina. As portas de ferro espalhadas estavam cobertas de ferrugem. Glaucia chegou rapidamente ao último galpão e, da porta, sentiu cheiro de cigarro e ouviu vozes vulgares de homens.
A voz estridente de Hortência transbordava o cinismo típico de quem usa a própria fraqueza como arma.
Glaucia sabia que Caio e a equipe já estavam indo em direção ao local de Hortência.
Ela precisava ganhar tempo.
Glaucia falou:
— Hortência, você sabe as consequências do que está fazendo? O criminoso é Tadeu. Você poderia viver o resto da vida em paz, por que cometer um ato tão extremo? Não tem medo de ser presa?
— O que você sabe? Eu não tenho mais volta. Cedo ou tarde, eles vão me pegar. Destruir você antes de ir já vale a pena. Glaucia, o Ícaro não te ama? Vamos ver se ele ainda vai te querer depois de ver você dormindo com outros. Hahaha. Mal posso esperar para ver a sua desgraça! — Hortência devolveu com escárnio.
— O que você quer dizer com "não ter volta"? Deixe o Sérgio ir, e agiremos como se nada tivesse acontecido. Cada um segue seu caminho, o que acha? — Glaucia percebeu que as palavras de Hortência escondiam algo estranho e aproveitou a deixa para ganhar mais tempo.
Hortência respondeu:
— Não importa. Você não vai entender. Vá transar com eles agora. Se eu não ouvir gemidos em um minuto, o pior acontecerá com seu filho.
Um dos homens carecas sugeriu:
— Gatinha, seja compreensiva. Sem conversa fiada, vamos terminar logo o serviço. Aquela mulher é capaz de tudo e você não quer ver seu filho em perigo, não é?

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