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Eles Pareciam uma Família, E Eu Virei a Estranha romance Capítulo 519

As lágrimas que Glaucia segurou por tanto tempo finalmente transbordaram diante de Benito. Com a voz embargada, ela disse:

— Pai, daqui para frente serei eu. Estou ao seu lado, posso cuidar de você, posso dar a comida na sua boca. Você nunca mais precisará fazer isso.

Ao ouvir o choro contido na voz de Glaucia, Benito percebeu, tardiamente, que seu movimento rotineiro havia dilacerado o coração da filha.

Ele deu um sorriso constrangido, subitamente sem saber o que dizer.

Ícaro simplesmente colocou uma tigela já preparada nas mãos de Glaucia:

— Já tirei as espinhas do peixe e separei o coentro. Pode dar a comida a ele, Glaucia.

Ele não sabia se Benito comia coentro ou não, apenas sabia que Glaucia detestava, então, cautelosamente, já havia resolvido o problema.

Glaucia sentiu um nó cimentado na garganta. Sem conseguir proferir uma palavra, pegou a tigela de forma quase mecânica.

Benito fez questão de animá-la, exibindo novamente um sorriso afável:

— Delicioso, muito bom! Fazia tanto tempo que eu não comia algo tão saboroso. Glaucia, a sua comida tem exatamente o mesmo sabor da comida da sua mãe.

Após terminar de alimentá-lo, Glaucia ajeitou as cobertas ao redor de Benito. Ela saiu do quarto, mas sentou-se no corredor, recusando-se a ir embora.

A imagem de Benito se debruçando instintivamente para comer feito um animal era como um espinho cravado fundo em sua alma. Ela sequer ousava imaginar como seu pai, tratado como um cachorro por aquela gente, com toda a sua dignidade esmagada, conseguiu suportar aquilo por tantos anos.

Ícaro sentou-se silenciosamente ao lado de Glaucia. Seu próprio coração também estava pesado, e ele não conseguia articular nenhuma palavra de conforto.

Os dois permaneceram assim, em um silêncio velado no corredor, durante a noite inteira.

Na manhã seguinte, foram despertados por uma algazarra.

Uma mulher com uma barriga enorme tentava forçar a passagem pelo corredor, enquanto algumas enfermeiras a bloqueavam com muito cuidado.

A mulher gritava algo que Glaucia não conseguia entender com clareza, mas, pela direção em que olhava, seu alvo era o quarto deles.

A gravidez parecia estar no oitavo mês. Por mais que as enfermeiras tentassem impedi-la, não ousavam usar força por medo de causar um acidente, o que permitiu que a mulher logo chegasse diante de Glaucia.

Ela parou, olhou para o quarto de hospital atrás de Glaucia e, em seguida, fixou os olhos nela:

— Você é a esposa do Galdino?

A mulher assentiu e continuou a choramingar:

— Ai, meu Deus, se soubéssemos que aquele chefe amaldiçoado era esse tipo de gente, nós teríamos preferido acordar de madrugada para vender coisas na rua a deixá-lo aceitar esse emprego! Mas não tínhamos escolha! Quando ele conseguiu a vaga, já não tinha como voltar atrás. A culpa é toda do chefe dele, ele só recebia ordens! Sra. Glaucia, cada crime tem o seu culpado, cobre de quem deve! Eu te imploro, por favor, vá até a delegacia e fale a favor do meu marido!

— Minha sogra já está velha. Se o meu marido pegar prisão perpétua por causa disso, mãe e filho nunca mais vão se ver. Olha que desgraça! Pelo amor de Deus, Srta. Glaucia, quer que eu me ajoelhe e beije seus pés? Eu imploro, peça clemência pelo meu marido!

A mulher gritava, segurando o pulso de Glaucia com uma força desesperada.

Sua voz estava rouca de tanto chorar e o corpo tremia inteiro. Ela parecia tão miserável que até a jovem enfermeira ao lado não resistiu e murmurou:

— Sra. Glaucia, veja bem...

— E você também acha que eu deveria perdoá-lo? Vocês todos aqui conhecem o estado do meu pai. Da minha parte, não tenho a menor obrigação de ter pena de alguém que ajudou a torturá-lo. — A voz de Glaucia era cortante.

A expressão da enfermeira travou e ela não ousou mais opinar.

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