O único compromisso que Glaucia tinha era o almoço com Ícaro. No entanto, diante de assuntos urgentes envolvendo o conglomerado, refeições poderiam muito bem esperar.
Com uma postura inabalável de mulher de negócios, ela concordou prontamente e acompanhou Hélder de volta à sala da presidência.
O escopo de operações do Grupo Marques era colossal. Possuía filiais espalhadas por todo o país e as operações no exterior também estavam em franca expansão. Os projetos centrais eram incontáveis.
Essas operações ramificavam-se como as raízes de uma árvore milenar, todas conectadas a um tronco principal, exigindo atenção constante e cortes cirúrgicos.
Hélder começou a despejar uma montanha de informações sobre ela de uma só vez. A quantidade de dados era tão vasta que, a princípio, seria impossível absorver tudo. Glaucia preencheu dezenas de páginas do seu bloco de anotações.
Ele parecia desesperado para transferir todas as responsabilidades o mais rápido possível. Seu ritmo de fala era agressivo, denso, quase sem dar a Glaucia tempo para respirar. Apesar disso, Hélder era incrivelmente meticuloso: ele sempre aguardava que a caneta dela parasse antes de introduzir o próximo tópico.
Essa imersão fez com que Glaucia fosse dragada pelo fluxo de trabalho, perdendo completamente a noção do tempo.
Às treze e trinta, percebendo o atraso, Ícaro entrou no escritório acompanhado de Sérgio.
Ao ver Ícaro, Hélder simulou uma surpresa moderada, lançando um olhar polido ao próprio relógio de pulso: — Meu Deus, Senhora Glaucia, me envolvi tanto com os relatórios que perdi totalmente a noção da hora, a ponto de fazer o Ícaro vir até aqui procurar por você. A essa hora, o refeitório dos executivos já deve estar fechado. O que acham de eu pedir que reservem uma mesa num restaurante próximo para almoçarmos todos juntos?
Hélder estava ali apenas repassando o trabalho, e Tatiana havia permanecido na sala o tempo todo. Como ninguém havia almoçado e a sugestão partira dele, seria indelicado para Glaucia recusar de forma brusca.
Além disso, ainda havia muitos pontos sobre os projetos que precisavam ser discutidos minuciosamente com Hélder.
Apesar da racionalidade do convite, Glaucia não respondeu de imediato. Ela desviou o olhar para Ícaro. Ao notar que ele não fez nenhuma rejeição verbal, ela assentiu: — Então aceito o convite, tio Hélder.
Como não havia estranhos na sala, Glaucia substituiu o título corporativo pela forma mais familiar, demonstrando que entendia os limites das interações.
— Sem problema algum. O que vocês preferem comer? Vou pedir à tia Tatiana que faça a reserva — disse Hélder casualmente, incluindo a esposa na dinâmica como quem não quer nada.
Tatiana levantou-se do sofá. Com um olhar carregado de expectativa contida, ela observou Ícaro. Vendo que ele não fez nenhuma objeção hostil, finalmente ganhou coragem: — Glaucia, Sérgio, o que vocês têm vontade de comer? Eu vou providenciar agora mesmo.
Sabendo muito bem que Ícaro não lhe daria uma resposta civilizada, ela estrategicamente evitou direcionar a pergunta a ele.
Não era uma tática de mestre, e Glaucia não precisou de muito esforço para dissecar a manipulação. Hélder não se mostrou surpreso por ter sido desmascarado.
— Eles são mãe e filho, no final das contas — admitiu Hélder, mantendo a sobriedade. — Por maiores que tenham sido os erros que Tatiana cometeu no passado, ela merece uma chance de se redimir. Eu sei muito bem que você está totalmente do lado do Ícaro. Fique tranquila, não exigiremos que você atue como nossa advogada de defesa, e jamais a colocaremos em uma posição difícil. Se o Ícaro vai ou não nos perdoar, isso é um fardo exclusivo nosso.
Se o truque foi descoberto na primeira tentativa, significava que estava obsoleto e não poderia ser repetido. Hélder agiu com total transparência.
Diante da clareza da admissão dele, Glaucia manteve sua frieza tática. Ela declarou com firmeza: — Não me importa se a busca pelo perdão do Ícaro vem de uma culpa legítima ou de outra motivação qualquer. O que exijo é que, desta vez, as ações de vocês sejam fruto de profunda reflexão. Jamais permitam que ele sofra novamente, por causa de quem quer que seja, repetindo os mesmos ciclos do passado.
O Ícaro de hoje já não era o menino frágil que eles deixaram para trás.
E, mesmo sabendo que manipulações triviais como aquelas não fariam arranhões na armadura de Ícaro, Glaucia, como a sua mulher, escolheu posicionar-se como sua protetora absoluta.
— Não haverá uma próxima vez — garantiu Hélder, em tom de juramento. — Viviane está na cadeia, e nossos laços com ela foram completamente cortados. Pelo resto de nossas vidas, teremos apenas um único filho: Ícaro.
Diante daquela promessa solene, Glaucia não expressou confirmação nem desdém. Aquele juramento pertencia a Ícaro, não a ela, e ela jamais cruzaria a linha de responder em nome dele.

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