— O paciente foi forçado a ingerir diversos medicamentos que afetam o sistema nervoso. Ele induziu o vômito várias vezes, o que sobrecarregou consideravelmente o trato gastrointestinal. Também há marcas de injeções em seu corpo. Precisaremos mantê-lo em observação no hospital por alguns dias para avaliar a situação detalhadamente. Mas a família pode ficar tranquila, ele não corre risco de vida e deve acordar em breve. — disse o médico.
Pouco tempo depois, Ícaro foi transferido para um quarto particular.
Ao ouvirem que ele não corria risco de vida, todos suspiraram aliviados. Neusa cerrou os punhos e praguejou:
— Aquela Viviane... Ela deveria dar graças a Deus por Ícaro estar bem. Caso contrário, eu voltaria agora mesmo e acabaria com a raça dela.
O Velho Senhor disse, demonstrando cansaço:
— Já chega. Vamos ver o Ícaro primeiro. Uma moça da alta sociedade não deveria falar essas coisas. Você soa como uma delinquente.
Neusa não retrucou e acompanhou o Velho Senhor até o novo quarto de Ícaro.
Glaucia já estava no quarto.
Mesmo com a garantia do médico de que Ícaro não corria risco de vida, ver seu rosto pálido e os olhos cerrados deixou Glaucia com um aperto no peito. Ela estava acostumada a vê-lo sempre sarcástico e provocador. Aquele Ícaro excessivamente quieto na cama de hospital a deixava desorientada.
Quando Neusa e o Velho Senhor entraram no quarto, também mergulharam em um silêncio absoluto.
Ícaro havia sumido por apenas alguns dias, mas qualquer um podia ver o quanto ele emagrecera. Seus traços ósseos estavam marcados no rosto, e havia olheiras profundas e escuras sob os olhos. Ele exalava uma aura de morbidez indescritível.
Ícaro sempre fora um homem cínico, mas inabalável.
Era como se nada no mundo pudesse derrubá-lo.
Vê-lo definhar de forma tão evidente deixava claro o inferno pelo qual ele passara naquela última semana.
Glaucia apertou a mão de Ícaro com firmeza. Mesmo sentindo o calor da palma dele, seu coração agitado não encontrava paz.
Ela e Ícaro haviam confessado seus sentimentos há pouco tempo. Nem sequer tiveram a chance de comemorar. Ela não teve tempo de dizer o quanto gostava dele, nem de apresentar Sérgio a ele de uma nova maneira, e então ele...
Com esses pensamentos, uma lágrima incontrolável escorreu pelo canto de seu olho e caiu sobre as costas da mão de Ícaro.
Os dedos do homem adormecido moveram-se levemente. Glaucia percebeu de imediato. Ela ergueu a cabeça, bem a tempo de encontrar os olhos de Ícaro, que se abriam lentamente.
As lágrimas deixavam sua visão turva, mas Glaucia pôde ver claramente que o olhar de Ícaro estava fixo nela.
Glaucia enxugou os olhos apressadamente.
— Ícaro, você acordou. Está sentindo alguma dor? Vou chamar o médico, eu...
A mão de Ícaro acariciou as costas de Glaucia em um ritmo suave.
— Não chore, Glaucia. Eu sei o que faço. Eu ainda não vi o Sérgio crescer e ainda não me casei com você. Eu me recuso a morrer antes disso.
A raiva contida de Glaucia não diminuiu um milímetro com as palavras dele.
— Então se machucar está tudo bem para você? — ela rebateu, implacável. — Ícaro, olhe para si mesmo. Olhe o estado em que você está. Se o Sérgio te visse agora, ele não te reconheceria.
— Minha culpa. O erro foi todo meu. Pode parar de chorar agora? — Ícaro tentou apaziguar novamente, batendo de leve nas costas dela. Ele se esforçou para soar gentil e sedutor, mas a voz rasgada impedia qualquer demonstração de emoção.
Glaucia baixou o olhar e encarou o rosto pálido de Ícaro. Apesar da insatisfação latente, ela não tinha coragem de continuar brigando com ele.
— Ícaro, tem certeza de que não está sentindo dor? Não quer mesmo que eu chame o médico? — perguntou ela, recuperando o tom pragmático.
— Não precisa. Fique aqui conversando comigo e já será o suficiente. — respondeu Ícaro.
Glaucia resmungou, num misto de irritação e cuidado prático:
— Falar como, com essa garganta destruída? Descanse um pouco. Eu vou voltar para casa, preparar um caldo calmante para sua garganta e trazer o Sérgio.

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