Aos olhos de Sérgio, Glaucia sempre seria a pessoa mais importante do mundo. Ela era a sua âncora, e ele jamais faria algo que a deixasse triste.
Os dedos de Glaucia acariciaram suavemente os cabelos do menino. Ao ser recebida por aquele abraço apertado, seu coração finalmente começou a encontrar paz.
— Fica calmo, meu amor. A culpa foi da mamãe desta vez. Eu prometo que, de agora em diante, sempre vou te avisar aonde vou. Não vou mais deixar você preocupado, está bem? — disse Glaucia.
Sérgio assentiu devagar, segurando os dedos dela com força. Seu olhar escorregou acidentalmente na direção de Ícaro, mas ele permaneceu em silêncio.
Assim que Glaucia se sentou, Neusa a cumprimentou educadamente. Como não tinham muita intimidade, a conversa entre as duas não se estendeu. Com Sérgio presente, mesmo que Clarinda tivesse inúmeras perguntas entaladas na garganta, não era o momento adequado para fazê-las. O jantar seguiu em uma atmosfera incrivelmente silenciosa.
Glaucia, no entanto, sentia uma culpa imensa em relação a Clarinda. No Réveillon, por causa dos problemas dela, Clarinda teve que abandonar a festa para ficar no hospital. E hoje, por ter caído em uma armadilha, fez Clarinda viajar às pressas para a Cidade G. Antes mesmo de Glaucia conseguir agradecer apropriadamente, Clarinda atendeu uma ligação e teve que sair às pressas.
Quase no fim do jantar, Ícaro levou Sérgio ao banheiro, deixando apenas Glaucia e Neusa na sala privativa.
Glaucia achava que o silêncio entre elas continuaria, até que Neusa de repente abriu o jogo: — Glaucia, você ainda está culpando o Ícaro? Eu não sei exatamente o que aconteceu entre vocês, mas sinto que, se eu não falar algumas coisas por ele, ele mesmo nunca vai falar.
Neusa suspirou e continuou: — Não se engane com o jeito relaxado do Ícaro, como se não se importasse com nada. Ele repara em absolutamente tudo. E o que ele decide esconder, ele é capaz de guardar para a vida inteira. Não estou tentando defendê-lo cegamente, só acho que seria um desperdício enorme se vocês se desencontrassem por causa de um mal-entendido. Afinal, ele é apaixonado por você há muitos anos.
— Quando ele foi mandado para as Forças Especiais pelo meu tio, mesmo sendo o mais novo, ele sempre assumia as missões mais perigosas. Ele até pediu transferência da tropa do meu pai de propósito, só para evitar que meu pai interferisse na segurança dele. Aquele ano em que você entrou na faculdade... na verdade, foi a primeira licença que ele conseguiu para visitar a família em anos. E nem foi uma licença dada de bandeja, ele lutou por ela.
Embora houvesse um turbilhão dentro dela, Glaucia era racional o suficiente para saber que não podia culpar Ícaro. Conhecendo o caráter doentio de Tadeu, se Ícaro não estivesse lá, Tadeu a teria entregado a outro homem até que ela engravidasse de qualquer jeito. Em vez de raiva, ela sentia que devia agradecer aos céus por ter sido Ícaro naquela noite.
As revelações de Neusa eram, de fato, novidade para ela. Glaucia percebeu o quanto ainda desconhecia sobre a vida de Ícaro e perguntou: — Por que o Ícaro foi mandado para as Forças Especiais no início?
A família Marques tinha uma linhagem tradicional de empresários. Ícaro nunca teve a obrigação de seguir carreira militar. Ele sempre foi treinado para ser o herdeiro do império Marques, e sendo o único herdeiro, por que ele...
Ao ouvir a pergunta, a expressão de Neusa se contorceu de raiva: — Tudo por causa daquela sonsa da Viviane Santos! Não sei que feitiço ela jogou no meu tio e na minha tia. Ela vivia choramingando e fazendo drama, dizendo que o Ícaro a maltratava.
— Primeiro, meu tio mandou o Ícaro para a mansão da família, mas meu avô achou um absurdo. O Ícaro era o filho legítimo deles! Era a Viviane quem estava usurpando o lugar dele, se alguém tinha que ser expulsa, era ela. Mas a minha tia não suportava a ideia de ficar sem a Viviane, e vendo que o avô não queria o Ícaro longe dos pais, ela envenenou a cabeça do meu tio, dizendo que o Ícaro precisava ir para o exército para 'aprender disciplina'.

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