Ele havia pensado que aquelas pessoas tinham mudado de atitude repentinamente, que finalmente haviam aceitado Glaucia.
No fim, era apenas porque descobriram antecipadamente a verdadeira origem de Sérgio. A única coisa que importava para eles era o menino.
Isaura, ao ouvir tudo, ficou igualmente em choque. Ela encarou Ícaro e murmurou para si mesma:
— O que diabos está acontecendo? Você é o pai do Sérgio... por que nunca disse nada antes? Por que deixou a Glaucia sofrer tanto?
Isaura não entendia as intrincadas teias da elite paulistana. Ela apenas sabia que, se a criança sempre foi de Ícaro, e ele gostava tanto de Glaucia, não havia necessidade nenhuma de deixar sua filha casar com Tadeu e suportar tantas humilhações.
O próprio Ícaro ainda não havia processado tudo. Ele nunca imaginou que daquele mal-entendido de uma noite, Sérgio teria sido concebido.
Mas, ao ver o silêncio de Ícaro, Isaura achou que ele estava tentando fugir da responsabilidade de novo. Sempre tão submissa, ela de repente deu dois passos à frente e agarrou a manga do paletó dele:
— Diga alguma coisa! O que está acontecendo? Você esteve brincando com a Glaucia esse tempo todo?
— Senhora Isaura, eu...
— Mãe, chega. Vamos para casa primeiro — cortou Glaucia.
Sua mente estava um caos, e com toda a família Marques presente, ela não queria causar uma cena humilhante.
Enquanto falava, segurou Sérgio com uma mão e puxou Isaura com a outra, caminhando em direção à saída do casarão.
Ícaro deu um passo à frente, bloqueando o caminho.
— Glaucia, me escuta. Eu não fiz de propósito, eu...
— Ícaro, eu quero ficar sozinha — disse Glaucia, com uma frieza cortante.
Sua mente estava confusa demais. Ela precisava organizar tudo aquilo sozinha.
E também não queria que sua vida pessoal fosse exposta como um espetáculo para os patriarcas da família Marques.
— Então eu levo vocês — insistiu Ícaro. Ele estendeu a mão por instinto, tentando pegar a mão de Sérgio, mas o menino recuou.
Sérgio arregalou os olhos, encarando Ícaro com desconfiança.
Mesmo sem entender os detalhes, ele sempre teve uma percepção aguçada das emoções alheias e sabia que Glaucia estava extremamente chateada.
Para Sérgio, a mãe sempre viria em primeiro lugar.
Por melhor que fosse sua relação com Ícaro, a balança em seu coração nunca penderia contra ela.
— Não precisa, Ícaro. Eu só quero ficar sozinha — repetiu Glaucia.
Talvez houvesse algum segredo por trás daquilo tudo.
Mas eles se conheciam há tanto tempo. Ícaro teve inúmeras oportunidades para confessar que o homem daquela noite era ele.
E ele nunca disse uma palavra.
Se ele tivesse dito a verdade mais cedo, ela não teria sido ameaçada tantas vezes por Tadeu, nem teria se esgotado mentalmente tentando descobrir quem era o pai biológico de Sérgio.
O rosto de Ícaro esfriou. Ele cravou os olhos no Velho Senhor.
— Então, desde o começo, não era a Glaucia que vocês estavam aceitando. Tudo o que queriam era o herdeiro com o sangue dos Marques.
— Qual era o plano de vocês? Fingir que apoiavam meu relacionamento com ela para depois mudar o sobrenome do Sérgio e disputar a guarda do menino na justiça?
Ele sentou-se de frente para o avô. Seus olhos transbordavam sarcasmo.
O Velho Senhor sabia de tudo muito antes e nunca mencionou uma palavra. Para Ícaro, essa era a única explicação lógica.
O patriarca arregalou os olhos, chocado:
— Ícaro, o que está dizendo? Acha mesmo que o seu avô é esse tipo de pessoa?
— E não é? Pelo que me lembro, o senhor sempre desprezou a Glaucia. Fez da vida dela um inferno várias vezes. E agora, descobre a verdade sobre o Sérgio e esconde. Além de planejar roubar a guarda do meu filho, qual outro objetivo o senhor teria? — rebateu Ícaro, a voz carregada de uma agressividade controlada.
Hélder, vendo o tom cada vez mais hostil do filho, interveio rapidamente:
— Ícaro, que jeito é esse de falar com o seu avô? Como ousa fazer esse tipo de acusação?
— Acusação? Vai me dizer que você também não pensou nisso? Nenhum de vocês nunca se importou com a Glaucia, nem comigo. A única coisa que vocês queriam era a criança — Ícaro cuspiu as palavras, implacável.
Ouvindo a certeza cortante na voz dele, Hélder não sentiu raiva. Sentiu apenas um choque profundo, seguido de uma vergonha esmagadora.
Então era assim que Ícaro sempre enxergou as ações da própria família.

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