Com a nova diretriz investigativa, os policiais começaram a varredura.
O sumiço dos moradores de rua foi confirmado rapidamente. Um jovem investigador retornou, com o rosto lívido de tensão. — A população de rua mais jovem desapareceu por completo. Curiosamente, apenas os catadores de lixo idosos, acima dos sessenta ou setenta anos, ainda circulam pelas avenidas da cidade.
Essa informação era a prova cabal das operações ilícitas. A manutenção dos idosos nas ruas servia como uma cortina de fumaça sociológica para disfarçar o sequestro sistemático dos indivíduos jovens e fisicamente aptos.
Se o laboratório farmacêutico estava conduzindo testes experimentais pesados, apenas um corpo vigoroso aguentaria a toxicidade das drogas por mais tempo.
Glaucia cerrou os punhos com tanta força que as unhas marcaram as palmas das mãos.
Se não tivesse se infiltrado nesse submundo corporativo, ela nunca acreditaria que a alta sociedade escondia parasitas tão abjetos. O cinismo dessa elite a enojava.
Enquanto o viúvo de Isabela prestava depoimento oficial na delegacia, os dados começavam a vazar: um número alarmante de desaparecimentos de pessoas solitárias e sem família estava sendo encoberto. A teia de corrupção da Farmacêuticos Rodrigues era muito maior do que antecipavam.
Após a saída da força policial, Alexandre dirigiu-se a Glaucia e Clarinda com autoridade. — O trabalho de vocês termina aqui. Essa linha de investigação escalou para algo muito perigoso. O Ano Novo já é amanhã, voltem para a segurança da Capital. Glaucia, assim que eu tiver qualquer rastreamento do seu pai, serei o primeiro a notificar.
A incursão arriscada de Glaucia no prédio da corporação já havia chegado aos ouvidos dele, que não admitiria perdê-la na Cidade G.
Alexandre trocou um olhar significativo com Clarinda.
— O tio Alexandre tem toda razão — disse Clarinda, compreendendo o código. — Faltam dois dias para o Ano Novo e o conselho da nossa empresa na Capital exige atenção. Eu preciso voltar. Glaucia, venha comigo. Sua mãe acabou de ter alta hospitalar este ano; o lugar dela não é sozinha em um feriado em família.
Glaucia hesitou. Sua mente fria dizia para caçar Vinicius até o fim, mas o peso da responsabilidade familiar apertou seu peito.
Isaura, sua mãe, já sofria de um complexo de inferioridade esmagador ao conviver no luxuoso reduto da família Marques, dominada pelo sarcástico Ícaro. Abandoná-la no Ano Novo seria um ato de crueldade.
Ciente de que seu pai não seria resgatado da noite para o dia, Glaucia acatou a ordem, comprou a passagem de primeira classe e retornou a São Paulo com Clarinda.
Ícaro, com sua arrogância natural e o habitual sarcasmo cortante, não perdoou: — Vô, o Sérgio está certíssimo. O senhor é infantil demais.
— Como assim infantil? O meu próprio bisneto me subestima e eu não posso debater? — esbravejou o patriarca. — A culpa é sua, Ícaro! Se você fizesse o meu filme com o garoto, eu não estaria passando por essa humilhação!
Isaura assistia à discussão sorrindo aliviada. Nos últimos dias, o formidável patriarca havia abandonado seus negócios apenas para assediar Sérgio com mimos na mansão, invadindo até os luxuosos eventos escolares que Ícaro havia contratado, transformando tudo em uma ridícula e excessiva demonstração de poder de quatro gerações juntas.
Ver a elite paulistana curvar-se de amores por seu neto genuinamente curou o terror de Isaura de ser rejeitada por não pertencer àquele mundo.
A governanta Lívia foi a primeira a notar a presença na sala. — Srta. Glaucia, a senhora voltou.
Antes que Glaucia confirmasse, Sérgio disparou como uma bala de canhão, abraçando suas pernas. — Mamãe! Você finalmente voltou! O Sérgio sentiu muita falta de você!

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