Por ser mãe do pequeno Sérgio, Glaucia era incapaz de ignorar uma criança em desespero.
Ao afastar a folhagem, deparou-se com um menino de uns sete ou oito anos encolhido no chão. Era um garoto extremamente magro, quase pele e osso, com a pele queimada de sol. Suas roupas eram opacas, cobertas de poeira e remendos improvisados. Parecia ter chorado por horas; os olhos estavam vermelhos e inchados. Ao ver Glaucia, o pânico tomou conta dele e ele instintivamente escondeu o rosto entre os joelhos.
Glaucia notou escoriações em seu rosto e mãos. Uma visão de cortar o coração.
— Garotinho, onde estão seus pais? Por que está chorando sozinho aqui? — perguntou ela. Aquele menino miserável destoava completamente do luxuoso e imponente prédio da Farmacêuticos Rodrigues. Ali não era um shopping da alta sociedade; a chance de ter se perdido acidentalmente dos pais era mínima.
O menino não respondeu de imediato, apenas a encarou com olhos arregalados, paralisado.
— Você está com fome? A tia vai te levar para comer alguma coisa, pode ser? — tentou Glaucia, mantendo o tom suave, mas firme.
Dessa vez ele não recusou, concordando com um leve aceno de cabeça.
Sem saber a situação dos pais e temendo se afastar muito do local, Glaucia o levou a uma lanchonete fast-food ali perto e pediu um combo de hambúrguer. Quando a bandeja foi colocada na mesa, o menino engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo de pura fome.
Glaucia empurrou a comida na direção dele: — Pode comer. Depois que terminar, você me conta onde estão seus pais, combinado?
Com a permissão, ele agarrou o hambúrguer e começou a devorar desesperadamente. Parecia não comer há dias. Em poucos minutos, havia limpado tudo que estava na mesa.
Temendo que não fosse o suficiente, Glaucia pediu ao garçom mais um combo.
Meia hora depois, com a barriga finalmente cheia, ele murmurou, envergonhado: — Eu... eu comi demais? Me desculpe, a tia gastou muito... Estou sem comer há dias, estava com muita fome.
— Não tem problema. O importante é estar alimentado. Você ainda não me disse por que estava escondido chorando. Onde está a sua mãe? — perguntou Glaucia de forma pragmática.
A refeição pareceu diminuir a barreira entre os dois. O menino fungou e voltou a soluçar. — Minha mãe... ela se foi. Ela... buááá... Ela estava deitada lá, foi carregada para fora. Eu não tenho mais mãe.
Como ex-policial, Clarinda seria muito mais eficiente no interrogatório. Ela comprou doces e petiscos, levou o menino para outro cômodo e conduziu uma entrevista cuidadosa por quase meia hora antes de voltar ao quarto de Glaucia.
— E então? — perguntou Glaucia.
— Descobri tudo — relatou Clarinda. — Os pais dele são divorciados. Ele morava com o pai no interior e veio à cidade grande procurar a mãe. A mãe tinha a saúde fragilizada e estava recebendo tratamento nas dependências da Farmacêuticos Rodrigues. Quando ele chegou, presenciou o exato momento em que ela foi retirada de lá, já sem vida. Como não conhecia nada, ficou rondando o prédio. Ele é covarde e medroso, o que foi a sorte dele, pois não fez escândalo e não alertou os seguranças da corporação. O Alexandre já enviou investigadores para checar o endereço do pai.
— Clarinda, o que você acha que... — Glaucia começou a formular a hipótese macabra.
— Eu suspeito que o Vinicius continua conduzindo experimentos humanos ilegais — cravou Clarinda.
Era exatamente o que Glaucia temia. A constatação fez um frio cortante percorrer suas veias. Se seu próprio pai tivesse caído nas mãos daquela escória corporativa, ele já estaria...
Glaucia bloqueou o desespero e forçou a mente ao estado de executiva em crise: — Deixo a criança sob sua responsabilidade. Vou procurar o César Reis e investigar o balanço e qualquer movimentação anômala na Farmacêuticos Rodrigues nos últimos anos.

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