Ao ouvir o relato, o velho Juvêncio soltou uma risada amarga e carregada de incredulidade.
Deixando de lado as atrocidades que os Pires haviam cometido, apenas o comportamento de Viviane no hospital já havia escancarado sua face mais perversa. E, mesmo assim, a nora dele continuava cega às evidências, preferindo atuar como ponte para a fuga da garota.
Quanto ao fato de a família Pires tê-la feito refém, o velho Patriarca acreditava muito mais na hipótese de que Viviane houvesse fechado algum tipo de acordo lucrativo com eles, entregando-se de bandeja para encenar a extorsão.
— E onde está a Viviane? — o velho Juvêncio exigiu saber.
O mordomo respondeu com precisão:
— Ela não seguiu com os Pires para a Cidade G. A Senhora Marques comprou uma passagem para o País M. É muito provável que, a esta hora, ela já esteja fora de alcance.
— Congele imediatamente todos os cartões corporativos vinculados aos Marques que estejam sob o nome dela. Além disso, rastreie e intercepte qualquer fundo transferido através do Grupo Castro.
— Aquela mulher já não faz parte da alta sociedade paulistana, muito menos dos Marques. Ela perdeu o privilégio de usufruir dos nossos recursos — sentenciou o Patriarca.
Após a saída do mordomo para cumprir as ordens, o velho Juvêncio voltou-se para Glaucia:
— Os Pires fugiram para a Cidade G. Você tem ideia de qual é a conexão deles com aquela região?
Se eles escolheram cortar o próprio braço para sobreviver, certamente fugiriam para um território que dominavam.
— Nunca ouvi falar de nada sobre isso — Glaucia respondeu de forma pontual. Ela sabia que Napoleão Pires e a esposa tinham estado no exterior no passado, mas os Pires jamais mencionaram qualquer laço estratégico com a Cidade G.
O velho Juvêncio assentiu rigidamente:
— Entendido. Vou acionar meus contatos na Cidade G para monitorar a situação. Se eles ousarem colocar a cabeça para fora, providarei a devida punição.
Ignorando todos os outros delitos, apenas o que a família Pires havia feito com o seu precioso bisneto já era motivo suficiente para garantir que ele jamais lhes daria trégua.
O simples fato de eles terem encontrado uma brecha para escapar e se esconderem na Cidade G já representava uma ofensa intolerável ao prestígio do velho Juvêncio.
O fato de os Pires terem escapado deixou Glaucia momentaneamente distante, mas ela não permitiu que isso tomasse muito espaço em sua mente.
O que a pegou totalmente de surpresa foi o telefonema que recebeu de Alexandre na manhã seguinte, agendando um encontro em um restaurante reservado.
Pelo tom grave no telefone, Glaucia suspeitou que a reunião estivesse relacionada aos Pires. No entanto, ao entrar na sala VIP do restaurante, a realidade provou-se muito mais complexa.
Além de Alexandre, a sala estava ocupada por diversos policiais veteranos. Os rostos não eram estranhos para Glaucia; eram os antigos companheiros de esquadrão de seu pai, figuras que ela chamava de tios durante a infância.
Com o passar dos anos, alguns se aposentaram, outros foram transferidos para diferentes divisões. Mas ali estavam eles, reunidos naquele pequeno espaço.
— Tratava-se de um laboratório clandestino que usava narcóticos para modificação biológica. Em termos claros: eles estavam conduzindo experimentos humanos.
— O caso é muito antigo e a maior parte do alto escalão cruzou a fronteira. Suspeitamos que o seu pai...
Alexandre observou a expressão impenetrável de Glaucia e foi incapaz de verbalizar o restante. Glaucia tomou a frente:
— Você quer dizer que o meu pai foi transformado em uma cobaia para eles?
— Glaucia, mantenha a calma. Isso é apenas uma forte probabilidade. Pode haver outras variáveis que ainda não compreendemos. Nós continuaremos seguindo essa linha de investigação até encontrarmos o paradeiro definitivo dele — Alexandre tentou apaziguar.
Mas, naquele momento, as palavras de consolo eram inúteis para Glaucia. O frio que preencheu o seu âmago foi paralisante.
Ela havia se convencido de que o pai desaparecera em combate, ou que alguma circunstância extrema o impedia de voltar. No pior dos cenários, ela aceitava o sacrifício no cumprimento do dever. Mas ela jamais, em seus piores pesadelos, concebera a ideia de que o seu pai, um homem íntegro, havia sido aprisionado por carteis para ser cobaia de experimentos desumanos.
Na sua memória, o pai abominava narcóticos com todas as forças, o que o levou a se tornar um agente da divisão de narcóticos de elite, caminhando sempre no limite da morte. Apenas a imagem mental dos traficantes o torturando e injetando as substâncias que ele mais odiava em suas veias era uma agonia excruciante.
Durante todos esses anos de ausência paterna, ela carregara a família nas costas, suportando abusos e humilhações com uma resiliência impecável. Ela acreditava ser inquebrável. Contudo, ao finalmente receber notícias do pai, suas defesas cederam.
— Glaucia, o cenário ainda pode mudar. A sua mãe vai precisar do seu suporte. Nós sabemos que você é uma mulher forte, e você precisa se manter lúcida agora — Alexandre reforçou.

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