Dante ficou na pista até o jato sumir.
Depois se virou para Alexandre com a expressão de quem tinha urgência para acabar com o problema principal.
- Me mostra onde as câmeras perderam o sinal dele.
Os homens de Gonçalo haviam dividido a ilha em setores.
Dante e Alexandre ficaram com o perímetro leste - a faixa entre a mansão e a mata fechada, onde as câmeras haviam flagrado o último movimento de Rafael antes do sinal ser perdido entre as árvores. A lógica era simples: ele estava tentando chegar à lancha ancorada no norte, e o leste era o caminho mais direto pela cobertura da mata.
Eles entraram em silêncio.
A mata à luz do dia era diferente da mata da noite - Dante havia aprendido isso algumas horas atrás, no outro lado da ilha, procurando por Lorena. De dia havia cor, textura, a possibilidade de ver a alguns metros à frente. Mas havia também sombra nos lugares errados, e alguém que conhecia o terreno podia usar isso.
Rafael havia tido tempo de sobra para conhecer o terreno.
Eles andaram por alguns minutos sem falar. Alexandre cobria o lado esquerdo, Dante o direito, os dois se movendo com uma coordenação que não havia sido discutida mas que funcionava - a mesma forma de andar, o mesmo intervalo entre os passos, o mesmo instinto de parar e ouvir antes de avançar.
Dante notou isso. Guardou para depois.
- Quando tudo aconteceu você já sabia da minha existência? - disse, sem parar de andar.
Alexandre não hesitou.
- Quando Julia me contou que estava grávida - a voz era baixa, calibrada para não carregar além dos dois - foi o momento mais feliz das nossas vidas. A gente estava com medo, sem dinheiro, sem apoio. Mas estava feliz. - Uma pausa curta. - Foi duas semanas antes de tudo acontecer.
- E depois?
- Depois eu acordei num hospital na Guatemala sem documentos, vários ossos quebrados, sem memória clara de como havia chegado até lá. - A voz saiu sem dramatismo, o tom de quem já contou essa história para si mesmo tantas vezes que ela perdeu a capacidade de surpreender. - Levei seis meses para conseguir ficar de pé de novo. Quando finalmente consegui contatar minha família, sua mãe já havia morrido. E você já estava com o velho.
Dante não respondeu imediatamente. Continuou andando, os olhos varrendo a vegetação à frente.
- Você tentou me encontrar?
- Sim.
- Quando?
Alexandre parou por um segundo para verificar um galho quebrado no chão - recente, o tipo de quebra que vem de um peso humano, não do vento. Apontou. Dante assentiu. Continuaram.
- A primeira vez foi quando você tinha quatro anos. - Alexandre olhou para frente enquanto falava, como se o passado estivesse lá, entre as árvores. - Descobri em qual escola você estudava. Fui até lá, fiquei na esquina esperando a saída. Quase fui confundido com um perturbado à espreita de crianças. - Um som que quase era uma risada, mas não chegou lá. - Você saiu de mão dada com uma empregada. Seus olhos inconfundíveis, são como os dela.
Ele parou por um segundo.
Continuou andando.
- Naquele momento achei que você estava bem. Que pelo menos teria a educação que eu nunca poderia te dar. Então fui embora.
- Como ela era?
A pergunta saiu mais baixa do que Dante havia planejado. Ele não olhou para Alexandre quando perguntou - os olhos continuaram na mata à frente, mas havia algo diferente na postura, uma atenção que não era tática.
Alexandre não respondeu imediatamente.
Quando respondeu, a voz havia mudado de tom.
- Ela era o sol. - Simples, sem ornamento, o tipo de descrição que só funciona porque é verdade. - Vibrante, cheia de energia, sempre com uma opinião sobre tudo e sem medo nenhum de dizer em voz alta. - Ele passou a palma da mão pelo rosto num gesto rápido, quase imperceptível, limpando as lágrimas que escapavam. - Não parecia em nada com os outros daquela família. O velho tinha aquela frieza toda, os outros iam na linha. E ela entrava numa sala e em dois minutos todo mundo estava rindo.
Uma pausa.
- Eu nunca pude perguntar nada sobre ela - Dante disse. - No início ninguém podia menciona-la. Depois porque aprendi que mencionar o nome dela era a forma mais rápida de fazer o velho sair do controle.
Caminharam mais um pouco em silêncio.
- Eu não sabia - Alexandre disse, finalmente, e havia nessa frase um peso que não era desculpa, era o peso de quem revisou aquela decisão de ir embora milhares de vezes e nunca encontrou uma forma de fazer as contas fecharem. - Não sabia como ele estava te tratando. Achei que por ser sangue Menezes você teria pelo menos...

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