O consultório tinha aquele cheiro de antissépticos que Nina associava a decisões ruins.
Ela olhou para o ventre.
Havia se esforçado tanto para chegar até aqui - a noite certa, o perfume certo, a camisola certa. Cada detalhe calculado com uma precisão que ela considerava seu maior talento. E havia funcionado.
O problema era que os cálculos haviam mudado.
Rafael havia perdido o posto de herdeiro principal. O que significava que a criança que ela carregava - e que havia custado tanto para conseguir - valia consideravelmente menos do que valia seis meses atrás.
O bebê estava bem. A médica havia confirmado com aquele sorriso profissional de quem dá boas notícias todos os dias. Vinte e oito semanas. Peso adequado. Batimentos fortes.
Rafael estava encostado na parede do corredor, o celular na mão, os olhos na tela. Ele ergueu o olhar quando ela se aproximou - rápido, avaliador, como se estivesse checando uma lista.
- Está tudo bem? - perguntou.
- Sim, está. - Ela respondeu entregando os exames
Rafael pegou os papéis e não respondeu. Apenas começou a andar em direção à saída.
Nina o seguiu.
Ela o observava enquanto caminhavam. Havia aprendido a ler Rafael. Mas nas últimas semanas, ele estava diferente.
Desde o casamento de Lorena, Rafael mudara. Não tinha apenas a frieza calculada de sempre, tinha o ar de quem já havia tomado uma decisão e estava apenas esperando o momento certo de executá-la.
Esse tipo de expressão Nina conhecia bem. Ela mesma o usava com frequência.
O carro estava na entrada. O motorista abriu a porta sem dizer nada.
Nina entrou. Rafael entrou. A porta fechou.
Seguiram em silêncio. Nina olhava pela janela. Tentando avaliar o próximo passo. Foi quando percebeu.
Ela conhecia esse caminho. Havia feito ele dezenas de vezes. E esse não era o caminho para casa.
Respirou fundo antes de falar. Devagar. Calculada.
- Rafael.
Ele não se virou.
- Onde estamos indo? - A voz saiu leve, quase casual. O tom de quem pergunta por curiosidade, não por medo.
- Você não precisa saber. - A voz era calma. Quase gentil. - Só precisa ficar quietinha para que o bebê nasça seguro e saudável.
Nina processou isso em silêncio.
Quietinha. A palavra favorita de homens que precisavam se sentir no controle.
Ela olhou pela janela. As ruas estavam ficando mais largas, o trânsito mais escasso. Uma sensação de reconhecimento que chegou antes da conclusão.
O aeroporto.
O estômago gelou - mas o rosto não mudou. Nina havia treinado o rosto durante anos.
A mão foi ao bolso devagar, os dedos encontrando o celular. Ela desbloqueou a tela sem tirar o aparelho do bolso, tentando digitar pelo tato. Uma mensagem. Qualquer coisa. Para qualquer pessoa.
Rafael se virou.
Em um movimento rápido, a mão dele mergulhou no bolso dela e arrancou o celular. Sem hesitar, abaixou o vidro da janela.

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