- Só vou tomar uns minutos.
A voz do velho Jorge cortou o burburinho do saguão, seca, direta. Não era um pedido. Era uma ordem disfarçada de gentileza.
Lorena olhou para Dante. Ele apertou sua mão, um toque rápido, mas firme.
- Vou te esperar no carro - ela disse.
Ele apenas assentiu.
Os olhos dele a acompanharam enquanto ela se afastava, os passos lentos, a saia do vestido balançando. Só quando a porta do carro se fechou atrás dela é que ele se virou para o avô.
Jorge indicou o carro preto estacionado na entrada. Os dois entraram no banco traseiro, e o vidro subiu com um zumbido baixo, isolando o ambiente do resto do mundo.
O cheiro de couro e charuto invadiu as narinas de Dante.
O velho ficou em silêncio por um segundo. Apenas observando. Avaliando. Como sempre fez a vida inteira.
- Rafael vendeu todas as ações dele - disse, finalmente. Direto. Sem rodeios. - A empresa agora pode cair na mão de estranhos.
Dante não respondeu.
- Eu quero que você assuma - Jorge continuou. - Você é o Menezes mais capaz. Foi uma pena que eu só enxerguei isso agora.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado. O ar dentro do carro parecia mais denso.
- O senhor me odiou a vida inteira - Dante disse, a voz baixa, mas firme.
- Fui injusto - o velho admitiu. Pela primeira vez, seus olhos vacilaram. Mas não havia vestígios de arrependimento. - Culpei você por coisas que não eram sua culpa. Mas isso fez de você o homem forte e capaz que é hoje.
- Agora que precisa de mim, percebe que foi injusto.
- Você ainda é um Menezes - Jorge disse, a voz mais dura. - Ainda que tenhamos diferenças…
Dante o cortou.
- Não.
A palavra foi curta, seca, definitiva.
Ele se virou para abrir a porta.
- A proposta continua de pé - Jorge disse, sem hesitar. - Pense. Quando estiver pronto, me procure. O sangue não se apaga, Dante.
Dante saiu do carro.
A porta fechou com um estalo seco.
Quando o neto já estava longe, o velho bateu com a bengala no banco onde Dante estivera sentado. A raiva que ele guardara durante toda a conversa finalmente encontrou escape.
- Esses malditos moleques não merecem o meu legado - murmurou, os olhos estreitos. Depois, para o motorista: - Vamos. Não temos mais nada para fazer aqui.
Dante entrou no próprio carro.
Fechou a porta e ficou em silêncio. Não disse nada. Apenas ficou ali, os olhos fixos na estrada à frente, as mãos apoiadas nos joelhos.
O motorista ligou o carro.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Ele Teve um Filho com Outra - Casei com o CEO que Ele Odeia