Lucas Ferraz chegou mais cedo do que o necessário.
O prédio da empresa ainda estava parcialmente vazio quando ele atravessou o hall principal. O vidro da fachada refletia a manhã cinza, e por um instante ele parou ali, olhando para o próprio reflexo.
Por anos, aquele lugar tinha sido território dele.
Cada andar.
Cada reunião.
Cada decisão importante.
Lucas sempre entrava naquele prédio com a sensação de que comandava algo maior que ele mesmo.
Naquela manhã, porém, a sensação era outra.
Controle perdido.
Ele passou pela recepção com passos firmes, mas o corpo estava mais tenso do que gostaria de admitir. O e-mail do conselho ainda estava aberto em sua mente como uma notificação constante.
“Reunião extraordinária — presença obrigatória.”
Não era comum.
E Lucas sabia disso.
No elevador, ele afrouxou discretamente a gravata e tentou organizar os pensamentos.
Não havia nada ilegal nas decisões que tinha tomado.
Nada que pudesse derrubá-lo de fato.
Mas havia contexto.
E contexto, no mundo corporativo, era suficiente para destruir reputações.
Quando as portas do elevador se abriram no último andar, o silêncio do corredor parecia mais pesado do que o normal.
A sala do conselho ficava no final do corredor.
Lucas caminhou até lá com passos medidos.
Quando abriu a porta, todos já estavam sentados.
Cinco pessoas.
O presidente do conselho.
Dois diretores executivos.
A chefe do jurídico.
E o diretor financeiro.
Nenhum sorriso.
Lucas fechou a porta atrás de si e sentou-se na cadeira vazia.
O presidente do conselho, Augusto Mendonça, cruzou as mãos sobre a mesa.
— Obrigado por vir, Lucas.
Lucas assentiu.
— Claro.
Augusto respirou fundo antes de continuar.
— Vamos ser diretos.
Lucas já esperava isso.
— Recebemos questionamentos formais sobre algumas decisões estratégicas que você tomou nos últimos meses.
Lucas manteve a expressão neutra.
— Que tipo de questionamentos?
A chefe do jurídico abriu uma pasta diante dela.
— Movimentações relacionadas a contratos e negociações internas antes da formalização de certas decisões.
Lucas olhou para cada um na mesa.
— Nada disso é irregular.
O diretor financeiro falou pela primeira vez.
— Talvez não.
A pausa foi curta.
— Mas a forma como ocorreu levantou dúvidas.
Lucas apoiou os braços na mesa.
— Dúvidas baseadas em quê?
Augusto respondeu.
— Informações que chegaram ao mercado.
Lucas sentiu algo se contrair dentro do peito.
Mercado.
Isso significava que a história já tinha começado a circular.
— Alguém está tentando criar uma narrativa — disse Lucas. — E vocês estão dando espaço para isso.
A chefe do jurídico ergueu os olhos.
— Nosso papel é verificar antes que a narrativa se torne um problema maior.
Lucas olhou diretamente para ela.
— Então verifiquem.
O diretor financeiro deslizou um documento pela mesa.
— Estamos verificando.
Lucas pegou o papel.
Era uma análise preliminar das decisões que ele havia tomado no último trimestre.
Nada acusatório.
Mas detalhado demais.
Detalhado o suficiente para mostrar que alguém tinha fornecido informações internas.
Lucas sentiu o maxilar endurecer.
— Quem trouxe isso para vocês?
Augusto respondeu sem hesitar.

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