A noite estava mais silenciosa do que o normal.
Isabela caminhava ao lado de Henrique pelo parque, e o som de seus passos se misturava ao vento leve que atravessava as árvores. As luzes dos postes criavam círculos suaves no chão, como pequenos refúgios de claridade no caminho.
Eles já tinham caminhado ali outras vezes.
Mas aquela noite parecia diferente.
Não havia assunto urgente, nem trabalho para discutir. O projeto que estavam conduzindo avançava bem, e em muito tempo Isabela sentia algo que não experimentava desde antes de tudo desmoronar com Lucas:
tranquilidade.
Henrique quebrou o silêncio primeiro.
— Você está mais leve hoje.
Isabela olhou para ele.
— Estou?
— Está — respondeu ele. — Dá para perceber quando você não está carregando algo nos ombros.
Ela soltou um pequeno sorriso.
— Talvez porque eu não precisei reagir a nada.
Henrique assentiu.
— Às vezes paz é isso. Um dia sem batalha.
Eles continuaram caminhando.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
E então aconteceu algo pequeno.
Os dedos deles se tocaram.
Não foi um gesto planejado. Apenas o movimento natural de duas pessoas caminhando lado a lado.
Mas dessa vez nenhum dos dois afastou a mão.
Isabela sentiu o toque primeiro.
Seu coração reagiu de imediato, um batimento mais forte, depois outro. Não era ansiedade. Era consciência.
Ela olhou para as mãos.
Henrique percebeu também.
Os dedos deles estavam apenas encostados. Nada firme, nada possessivo. Apenas contato.
Ele parou de caminhar.
Isabela também parou.
Por um segundo nenhum dos dois se mexeu.
Henrique olhou para ela com uma expressão que misturava cuidado e algo mais profundo.
— Se isso te deixar desconfortável… — começou ele.
Isabela balançou a cabeça lentamente.
— Não deixa.
A resposta saiu mais baixa do que ela imaginava.
O vento atravessou o parque naquele momento, fazendo algumas folhas se moverem no chão.
Henrique deu um passo mais perto.
Não muito.
Apenas o suficiente para diminuir o espaço entre eles.
Isabela podia sentir a presença dele agora de forma clara. O cheiro suave da camisa dele, o calor do corpo próximo, a calma que sempre vinha quando ele estava por perto.
Ela levantou os olhos.
— Eu passei muito tempo achando que sentir algo de novo seria… errado — disse ela.
Henrique a observava com atenção total.
— Errado por quê?
— Porque parecia rápido demais. Ou irresponsável. Ou como se eu estivesse apagando o que aconteceu.
Henrique demorou alguns segundos antes de responder.
— Você não está apagando nada — disse ele. — Você está vivendo depois.
As palavras ficaram suspensas entre eles.
Isabela sentiu algo dentro dela relaxar.
Era isso.
Ela não estava traindo o passado.
Estava apenas permitindo que o presente existisse.
Henrique levantou a mão devagar.
Por um segundo pareceu que ele iria tocar o rosto dela.
Mas parou antes.
— Posso? — perguntou.
A pergunta foi simples.
Mas carregava respeito.
Isabela deu um pequeno passo à frente.

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