O apartamento mergulhou em silêncio depois da última mensagem.
Isabela continuava olhando para a fotografia.
Seu pai.
Augusto.
E aquele terceiro homem.
O homem que Henrique jurava ter visto no prédio da rede.
A peça que faltava.
Ou pelo menos uma parte dela.
Henrique puxou uma cadeira e sentou-se diante da mesa.
A foto continuava aberta no celular.
— Eu tenho certeza.
A voz dele saiu firme.
— Não foi alguém parecido.
Era ele.
Isabela passou a mão pelos cabelos.
O cansaço começava a aparecer.
Mas não era um cansaço físico.
Era o peso de descobrir que cada resposta gerava três novas perguntas.
— O que ele estava fazendo lá?
Henrique apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Não parecia alguém importante.
Isso chamou a atenção dela.
— Como assim?
— Ninguém reagia à presença dele.
Ele parecia invisível.
O silêncio caiu.
E então algo se encaixou.
Isabela levantou os olhos.
— É exatamente esse tipo de pessoa que controla tudo.
Henrique percebeu imediatamente.
Os líderes apareciam.
Os executores também.
Mas os verdadeiros estrategistas...
Não.
Permaneciam esquecidos.
Ignorados.
Subestimados.
O celular vibrou novamente.
Dessa vez não era uma mensagem.
Era um arquivo.
Uma pasta compactada.
Sem remetente.
Sem explicação.
Apenas enviada.
Henrique aproximou-se.
— Vai abrir?
— Claro que não.
Ele sorriu.
— Finalmente uma decisão sensata.
Isabela quase revirou os olhos.
Quase.
Porque a verdade era que ela queria abrir imediatamente.
Mas aquilo era óbvio demais.
Outra armadilha.
Outra provocação.
O telefone tocou.
Os dois congelaram.
Número desconhecido.
Novamente.
Henrique e Isabela trocaram um olhar.
Ela atendeu.
Silêncio.
Depois uma respiração.
Lenta.
Controlada.
E então...
— Você está atrasada.
A voz era diferente.
Não era Augusto.
Não era o homem anterior.
Era outra pessoa.
Mais velha.
Mais fria.
— Quem está falando?
A pergunta saiu firme.
A resposta veio imediatamente.
— O homem da fotografia.
O coração dela disparou.
Henrique ficou imóvel.
A voz continuou.
— Você demorou muito para me encontrar, Isabela.
Ela apertou o celular.
— Quem é você?
Um breve silêncio.
Como se ele estivesse decidindo quanto revelar.
— Meu nome não importa.
— Importa para mim.
— Então me chame de Samuel.
O nome não significava nada.
Mas algo na voz dele...
Parecia familiar.
Estranhamente familiar.
— Você conhecia meu pai.
— Sim.
— E Augusto.
— Sim.
— Então por que está fazendo isso?
A resposta demorou.
Quando veio, parecia carregada de algo antigo.
Algo amargo.
— Porque alguém precisa terminar o que começou há trinta anos.
O silêncio caiu.
Henrique observava cada reação dela.
Samuel continuou.
— Seu erro foi acreditar que a história começou quando você entrou nela.
— Então começou quando?
— Quando três homens decidiram guardar um segredo.
O coração de Isabela acelerou.
Ela olhou novamente para a foto.
Três homens.
Os mesmos três.
— Que segredo?
Samuel soltou uma risada baixa.
Sem humor.
— Essa é a pergunta que custou vidas.
O silêncio ficou mais pesado.
— Meu pai está morto.
— Talvez.
A resposta atingiu como um golpe.
Isabela ficou imóvel.
Henrique também.
Samuel continuou.
— Augusto sabe a verdade.
Eu sei a verdade.
A única pessoa que não sabe...

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