Mesmo sabendo que tudo aquilo desapareceria.
Mas, a cena que ele esperava não aconteceu.
O casaco pousou de fato sobre os ombros de "Valentina".
Seu casaco, real, sobre o corpo dela.
Cícero sentiu como se sua respiração tivesse sido cortada, sugada por uma sanguessuga.
Ele parou.
Apesar de saber claramente que tudo era falso, uma fantasia sua.
A mão de Cícero que usava o anel se contraiu incontrolavelmente.
Ele ergueu a mão, tentando tocá-la, segurando seu queixo e erguendo seu rosto.
As mechas de cabelo de Valentina caíram naturalmente em ambos os lados, e seus olhos úmidos e brilhantes o encaravam em silêncio.
Ainda estava ali.
Ela ainda estava ali.
Ele realmente havia erguido o rosto dela.
A pele de seu queixo era macia como tofu, e mais abaixo, seu pescoço.
O pescoço. Quando Cícero se ajoelhava diante dela para fazer aquilo, ela ofegava, engolia em seco, emitia sons que mal conseguia controlar.
Tudo vinha daqui.
A ponta de seu dedo pressionou aquela área.
Ele se lembrava dela usando aquele lugar para chamá-lo de Cícero, para chamá-lo de Cícero.
E o chamou por mais de dez anos.
Antes, aquele lugar só pronunciava o nome dele.
A respiração de Cícero era baixa, seus olhos escuros e profundos enquanto a observava, o corpo ainda confirmando ansiosamente os sintomas de sua doença.
Ela o olhava, seus olhos fixos nele, como uma boneca, límpida, pura e serena.
O corpo de Cícero reagiu de forma incontrolável.
Uma maré de emoções se entrelaçou.
Ele baixou o olhar.
Lembrou-se da cena que viu no guarda-roupa em Londres, e todo o sangue de seu corpo ferveu, correndo em uma única direção.
A mão que segurava seu queixo começou a tremer levemente.
— Você não disse que queria me fazer sofrer?
Seus nervos pulsavam.
Ele se ajoelhou lentamente, ajoelhou-se diante dela.
Seu corpo alto se curvou, ajustando-se perfeitamente ao corpo dela, que vestia apenas uma blusa larga.
Sua respiração era quente e contida.
Ele pegou a mão dela e a pressionou contra a ferida em seu próprio braço.
— Você nem me viu sofrer, como pôde ir embora?
A dor aguda e clara o estimulava.
Sua respiração roçava o pescoço dela, úmida, caótica.
Apoiando-se no sofá, ele se levantou.
A cena diante dele já estava clara.
Não precisava mais de velas, o dia já havia amanhecido.
Não havia ninguém à sua frente.
Aquele casaco ainda estava caído no chão.
…
Em uma única noite, Cícero sentiu como se tivesse morrido uma vez.
Ele saiu do hotel.
A brisa, a brisa do Quênia.
Ele recuperou sua fachada de calma, o rosto inexpressivo, escondendo todas as suas emoções e seu estado deplorável.
Até que chegou àquela pequena cidade queniana.
E viu aquela figura familiar e estranha passar rapidamente.
Ela usava um boné de beisebol branco, camiseta branca, jeans, com uma câmera pendurada no pescoço.
Seu rabo de cavalo alto balançava com a brisa.
Ela estava parada em uma barraca que vendia pulseiras, com uma pulseira de contas de vidro no pulso.
Não se parecia muito com ela.
Mas se parecia muito com a Valentina de antes.
Muito parecida com a Valentina de dezoito anos, ou com a Valentina que veio ao Quênia com ele no passado.

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