Seu rabo de cavalo preto era liso e brilhante.
Sua figura, esguia e resiliente, estava parada em frente à barraca.
Sua pele era tão branca que quase irradiava luz.
Sob o sol, parecia ofuscante.
Como um bambu recém-partido, revelando seu interior mais puro e resistente.
O mercado estava movimentado.
Pessoas iam e vinham.
Havia muitos produtos de artesanato local.
O ambiente era vibrante e cheio de vida.
Dois vendedores passaram por ele, puxando seus carrinhos.
Eles se foram.
A figura desapareceu.
Cícero permaneceu onde estava.
Suas pálpebras tremiam enquanto ele encarava a sombra fugaz.
Era uma ilusão ou era real?
Ele já não conseguia distinguir.
Era como a teia de enganos que ele tecera com tanto esmero para Valentina durante a primeira metade de sua vida.
Havia mais mentiras ou mais verdades nela?
Ele também já não conseguia distinguir.
Ele caminhou até a barraca onde vira a miragem.
Baixou os olhos para as pequenas joias sobre a mesa.
O vendedor local, muito entusiasmado, recomendou um item.
Ele pegou uma pulseira, o modelo mais vendido, e explicou em inglês:
— Este é o nosso modelo mais popular. A turista que esteve aqui agora mesmo comprou mais de uma dúzia de uma só vez antes de ir embora.
Cícero apertou a pulseira, que estava morna, ainda com o calor residual de um corpo.
Ele hesitou por alguns instantes.
— Que tipo de turista?
Ele colocou um maço de xelins diante do vendedor.
O homem olhou para ele e, cautelosamente, guardou o dinheiro.
— Camiseta branca, chapéu branco. Falava português...
Ele apertou a pulseira em sua mão, segurando-a com força na palma.
Apertando-a, roçando-a, Cícero mantinha uma expressão calma, mas suas pálpebras tiveram outro leve espasmo.
Então, desta vez, não era uma alucinação.
Ele baixou a cabeça, olhando para seu olho direito ferido no espelho da barraca, como se tivesse acabado de se dar conta de algo.
Precisa ser tratado...
Precisa ser curado.
Valentina odiava coisas feias.
-
A lua de mel foi marcada para durar catorze dias.
Aquele era o décimo dia.
Sávio dormia profundamente no hotel, enquanto Valentina arrastava Luciano para comprar uma infinidade de presentes.
Comida, roupas, utensílios, compraram de tudo.
Valentina, de mãos dadas com Luciano, deu várias voltas pelo pequeno mercado, como se estivesse fazendo compras no atacado.
Luciano a seguia, carregando um monte de sacolas.
Valentina escolheu um chapéu de palha e o colocou na cabeça dele.
Ele não tinha as mãos livres, então só pôde curvar os lábios em um sorriso resignado, deixando-a fazer o que quisesse.
— Que fofo. — Disse ela, satisfeita, cutucando a bochecha dele.
O sorriso de Luciano se acentuou, ainda mais resignado.
Suas covinhas pouco visíveis se aprofundaram no canto dos lábios.
Com o chapéu de palha típico do Quênia, ele carregava apenas as coisas de Valentina.
Em um piscar de olhos, Valentina desapareceu novamente.
— O que você quer comer no almoço...?
As rodas de um carrinho de mão giravam ruidosamente.
Valentina desviou o olhar e começou a pensar.
Sávio estava no restaurante do primeiro andar, comendo seu peixe com batatas fritas.
Perto dali, dois britânicos assistiam às notícias em um tablet.
Luciano colocou um prato de frutas na frente de Sávio, forçando-o a comer.
No tablet, uma voz entusiasmada e vibrante narrava a eleição para prefeito em uma cidade vizinha a Londres.
No vídeo, um homem de meia-idade, de terno e com ar refinado, erguia as mãos em exaltação, caminhando junto com a multidão.
As pessoas seguravam cartazes com slogans de campanha.
Aquele era o único candidato a prefeito de ascendência.
E também o que tinha a maior porcentagem de votos, o mais provável a vencer.
Sem concorrência.
Sávio, enquanto comia a sapota-branca que seu pai havia cortado, olhou de relance para a pessoa na tela.
Parecia um pouco familiar.
Sávio achava que já o tinha visto.
Era... o avô?
Era assim que deveria chamá-lo.
Sávio não tinha avós maternos e quase nunca via os paternos.
Vira a avó apenas quatro vezes, e em cada uma delas, ela o olhava com um certo desprezo.
Até mandou fazer um exame genético para ver se ele tinha potencial para se tornar um psicopata.
Quanto ao avô...
Ele o vira apenas uma vez.
Aquele avô não parecia tão caloroso e gentil quanto na tela.
Tinha um rosto frio e severo, como o pai assassino de Tadeu, e também como seu professor de matemática, que ele odiava.
Em suma, era muito sério.

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