Quanto mais perto do final do ano, melhor ficava a recuperação do tornozelo de Valentina.
O Dr. Waldir vinha examiná-la duas vezes por dia e balançava a cabeça com satisfação: — Hum, muito bom.
Atrás dele, um grupo de médicos e estagiários também assentia.
Em oito anos, o osso que havia crescido torto já havia se fixado nessa posição, e corrigi-lo não era uma tarefa fácil.
Com um exemplo vivo e clássico como este diante deles, todos se esforçavam para registrar o caso, querendo adicionar o prontuário de Valentina aos seus relatórios.
Valentina, cercada por um círculo de jalecos brancos que a observavam, sentiu-se como um tesouro nacional em exibição. O pãozinho que estava comendo pela metade parou em sua mão: — ...
Isaura, escrevendo furiosamente, olhou dos pés dela para as mãos.
Seu olhar pousou no pãozinho, e ela estreitou os olhos.
Valentina foi mais rápida que ela, protegendo-o com a velocidade de um raio: — Eu mal consegui comer este aqui. Quem tentar roubar não é humano.
Só então Isaura retirou a mão, resmungando: — Quem quer roubar sua comida? Eu só estou preocupada que você coma demais e fique constipada.
“...”
O grande grupo de médicos se dispersou. Isaura prendeu a caneta esferográfica no bolso do peito e, ao sair, encontrou Luciano no final do corredor, falando ao telefone.
Ela finalmente entendeu por que a diretora estava comendo às escondidas durante o exame.
Provavelmente estava se segurando há dias, e com o cunhado cuidando dela sem descanso, não tinha outra opção.
Ela pegou o prontuário de antes, escreveu algumas palavras grandes, bateu na prancheta e tossiu alto algumas vezes, fazendo um pouco de barulho.
Isso fez com que Luciano olhasse em sua direção.
Ela apontou para a prancheta. Luciano, ao ver o que estava escrito, acenou com a cabeça em agradecimento.
Sem desligar o telefone, Luciano continuou a chamada enquanto entrava novamente no quarto.
Valentina tinha acabado de abrir o terceiro pãozinho e nem sequer teve tempo de dar uma mordida. Ao ouvir o barulho, ela escondeu a comida rapidamente atrás das costas, com a bochecha direita estufada, em uma tentativa óbvia de disfarçar.
Luciano nem olhou para ela, apenas estendeu a mão, com a palma para cima, em sua direção.
Valentina ficou em silêncio por alguns segundos, escondendo ainda mais a comida atrás de si.
Só então Luciano olhou para ela, com a mão ainda estendida.
“...”
Valentina, a contragosto, tirou o pãozinho de trás das costas.
A mão de Luciano não se moveu, continuava estendida.
Valentina, com relutância, tirou também o meio saco de pão de forma de debaixo do travesseiro.
Luciano colocou os dois sacos de lado e, com um movimento, levantou o cobertor dela. Debaixo, apareceram quatro ou cinco sacos de pães de diferentes tipos, todos ao redor de Valentina, que estava sentada de pernas cruzadas.
Havia os favoritos de Valentina, de arroz roxo e queijo, e também o novo, de chocolate com recheio cremoso...
— Certo, bom, por hoje é só. Obrigado pelo trabalho. — Luciano encerrou a chamada e guardou o celular no bolso, encarando-a. — A confissão diminui a pena, a resistência agrava. Entregue seu cúmplice.
Valentina, ainda leal, disse: — Eu mesma comprei...
Luciano não lhe deu chance de ter inseguranças com sua aparência.
Valentina, na verdade, não tinha inseguranças, apenas conhecia seu nível de beleza: mediano, nada que se destacasse como “bonita”.
Ao voltarem para o Chalé da Cultura, Luciano já havia decorado quase tudo. A pequena casa tinha um ar festivo.
Na parede da TV, havia um cordão de pequenas lanternas vermelhas que acendiam.
Bem, era um pouco brega, mas aconchegante e reconfortante.
Havia muitas decorações assim na Chinatown de Londres.
No Brasil, parecia que não tantas famílias usavam mais esse tipo de decoração.
Mas quando estava no exterior, Valentina sempre se sentia acolhida por elas, então Luciano as comprava para ela todos os anos.
Sávio, ao voltar da escola, viu o familiar cordão de lanternas vermelhas e exclamou: — Uau! Agora aqui também tem um cordão de lanternas, como na nossa casa em Londres!
Valentina, sentada na cadeira de rodas, estava na cozinha lavando alface, fazendo o que podia para ajudar.
Sávio largou a mochila, lavou as mãos e correu para ajudar: — Deixa comigo, deixa comigo, Valentina!
Luciano, ao sair da varanda, viu a cena na cozinha.
Às vésperas do Ano Novo, a Cidade Y já tinha um clima festivo. De vez em quando, alguns fogos de artifício e rojões explodiam no céu noturno.
Valentina, com roupas de casa folgadas, cabelo preso em um coque baixo e desalinhado, olhava para baixo, seus cílios longos e finos como um leque, descascando alface com um descascador.
Sávio, em cima de um banquinho, lavava a alface, tagarelando com Valentina sobre o que havia acontecido na escola naquele dia.

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