༺ Amara Wild ༻
Cal me olhou com um sorriso gentil enquanto enxágua a louça, e me perguntou, num tom leve:
— E aí, mocinha? Como você está se adaptando na casa dos bacanas?
Apoiei os cotovelos no balcão de mármore, observando ele terminar de secar os pratos. Era bom estar de volta ao único lugar que me fazia sentir um pouco mais… eu mesma.
— Até que está sendo tranquilo. Eles me tratam bem, principalmente depois… — hesitei um pouco, pensando na transformação pela qual passei. — Bom, depois de tudo, as coisas mudaram bastante.
Ele ergueu o olhar e me observou de um jeito carinhoso, quase paternal, como sempre fazia.
— Você ficou bonita, sabia? Não que não fosse antes, mas… — Ele deu de ombros, continuando com um sorriso suave. — Até quando vivia nas ruas, você chamava atenção. Talvez por isso aquele nojento do Romildo não parava de te perseguir.
Revirei os olhos ao lembrar de Romildo, um nome que preferia nunca mais escutar.
— Ah, nem me fala desse desgraçado. — Respondi, soltando um suspiro. — Só de lembrar que ele tentou me atacar duas vezes naquele beco… Mas, por sorte, eu te conheci e tinha você para me proteger.
Desviei do assunto para não pensar mais nele, me virando para Cal com curiosidade.
— E você? Como está se adaptando à nova vida? — perguntei, um sorriso sincero no rosto.
Ele se virou para pegar a garrafa de café, servindo uma xícara para mim e outra para ele.
— É confortável. Agora tenho um lugar para dormir. — Ele deu de ombros, mas percebi um brilho de contentamento nos olhos dele. — Então, acho que não posso reclamar, né?
Observei ao redor, o pequeno ambiente onde ele morava agora. Era simples, mas muito melhor do que a rua.
— Pelo menos, conseguimos alguma coisa com tudo isso — comentei, pensativa.
Cal se aproximou de mim, ainda segurando o guardanapo com o qual estava secando as mãos. Ele me olhou mais sério, com aquele ar protetor que já conhecia bem.
— Mas… a que preço, Amara? — perguntou, a voz baixa. — Sei que a rua é difícil, mas… será que não conseguiríamos dar um jeito sem… — Ele suspirou, hesitando. — Sem precisar você entrar nesse tipo de acordo?
Abaixei os olhos, sentindo o peso das palavras dele. Sabia que ele só queria me proteger, mas a verdade é que eu não aguentava mais aquela vida.
— Teve um preço, sim. Mas eu queria sair da rua, Cal. — confessei, sentindo minha voz tremer um pouco. — Não aguentava mais andar por aí sem rumo, sem ter um canto seguro para descansar.
Ele assentiu, respeitando meu silêncio por um momento antes de se sentar ao meu lado. Mexeu o café na xícara, perdido em pensamentos, e, depois de alguns segundos, olhou para mim com uma expressão um pouco preocupada.
— Só toma cuidado, viu? — ele disse, como quem fala com uma irmã mais nova. — Não se deixa levar por eles, Amara. E, pelo amor de Deus, não se apaixona. Eles podem ter sido a sua saída mas também podem ser sua destruição.
Soltei uma risada surpresa e olhei para ele, incrédula.
— Você acha mesmo que isso é possível, Cal? Não acredito nisso de amar quatro pessoas assim.
Ele riu, mas o seu riso possui um toque de ironia.
— Olha, não duvido de nada. O mundo anda do avesso, sabe? E quanto mais você se envolver com eles, mais vai entender o que estou dizendo.
Olhei para ele, um pouco desconcertada, mas Cal somente deu um sorriso e me ofereceu mais café. O que ele queria dizer exatamente? Eu ainda não sabia, mas, por algum motivo, suas palavras ficaram ecoando na minha mente enquanto tomamos o café em silêncio.
Cal passava os canais da TV com desinteresse enquanto suspirava, olhando para a notificação no celular. Ele percebeu e, curioso, me olhou de lado.
— Que foi, hein?
— Vou ter que ir embora… — respondi, revirando os olhos. — Domenico acabou de mandar outra mensagem. Já está mandando um carro me buscar.
Ele deu uma risada e voltou a se concentrar na TV, parando em um canal de futebol.
— Esse aí é o pior de todos, Amara. Está obcecado por você, já percebeu?

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