Inicialmente, Deise temia que, como Palmiro estava internado, seria impossível para ele comparecer pessoalmente ao Cartório para assinar a certidão de divórcio.
O que, em teoria, poderia invalidar o pedido de separação.
Contudo, o Cartório ligou repentinamente informando sobre uma nova regulamentação: a presença de ambas as partes já não era obrigatória; bastava uma videochamada para confirmar que não havia mudança de intenção.
Naquela mesma tarde, Deise recebeu uma encomenda entregue diretamente em sua empresa.
Era um envelope.
Ela o abriu e tirou o conteúdo:
A certidão de divórcio.
O mesmo papel timbrado, mas com um significado diametralmente oposto ao da certidão de casamento.
Sentada em seu escritório, Deise segurava o documento.
Mais de uma vez, ela havia imaginado qual seria a sensação de finalmente ter aquele papel em mãos.
Alegria? Alívio? Sensação de vingança?
Mas a realidade era que não sentia...
Absolutamente nada.
Deise ainda se lembrava de que, antes de arruinar completamente a reputação de Palmiro, às vezes ficava triste ao pensar no seu casamento infeliz e no homem péssimo que havia escolhido.
Mas, aos poucos, essa dor foi desaparecendo.
Sendo substituída pela satisfação de uma vingança iminente.
Agora, no entanto, Deise já não sentia nem tristeza, nem satisfação.
Porque, aos seus olhos, tanto Palmiro quanto o casamento deles não passavam de lixo.
E ninguém nutre emoções por lixo.
Com um sorriso aliviado, ela guardou a certidão.
A partir daquele momento, ela e Palmiro não tinham mais nada a ver um com o outro.
Casar e divorciar deveriam ser grandes marcos na vida de alguém, mas, naquele instante, pareciam apenas episódios insignificantes em sua trajetória.
O caminho pela frente ainda era longo; agora, por exemplo, ela precisava se concentrar na sua pesquisa e desenvolvimento.
De bom humor, sua produtividade estava alta e ela até fez um pouco de hora extra.
Eram pouco mais de sete da noite quando deixou a Saúde Paiva Ltda.
Ela havia colocado todos os documentos da pesquisa na bolsa que William lhe dera. Usar uma bolsa de luxo caríssima como pasta de trabalho chegava a ser cômico, pensou ela.
Assim que entrou no carro, recebeu uma mensagem no WhatsApp. Era de William.
William: Ainda ocupada?
Deise: Não, acabei de sair do trabalho.
William: Então vou te esperar em casa.
Deise: Acho que você vai esperar sentado. Hoje vou sair com a minha melhor amiga para encher a cara.
William: Você vai para a Mata Elfa?
Deise: Vou, por quê?
William: Nada.
A conversa no WhatsApp terminou ali. Ela não respondeu mais, e ele também não enviou mais nada.
Fosse como fosse, aquele era o dia em que Deise voltava oficialmente a ser solteira.
É claro que ela precisava se soltar e comemorar com Susana Guerra.
A Mata Elfa de Susana era uma boate, então o que não faltava era bebida de todos os tipos.
Que palhaçada era aquela do William?
Ela abriu a boca para questioná-lo, mas as palavras não saíram.
O homem curvara-se de forma cortês, e seus olhos, que antes eram gélidos e intimidadores, agora brilhavam com um calor acolhedor e envolvente.
A atenção dela foi irremediavelmente fisgada, incapaz de desviar o olhar do corpo de William.
Ela se lembrou de uma vez em que havia ficado bêbada e ele também agira como um garoto de programa para acompanhá-la.
Só que daquela vez ela estava fora de si e quase não lembrava de nada.
Agora, de certa forma, estava compensando aquilo.
Deise abriu um leve sorriso e deixou-se guiar por William até um dos camarotes.
— Agora pode me dizer por que você apareceu aqui assim?
— Se a Senhorita estiver disposta a me pagar um combo de champanhe Ace of Spades, eu considero te contar.
A fala serena de William a deixou boquiaberta.
Aquele era mesmo o William?
De repente, ela esticou a mão e beliscou o rosto dele.
Não apertou muito forte, mas também não foi tão suave.
Porque realmente duvidava que o homem na sua frente fosse ele.
O gesto a fez arrancar uma risada de William.
Ele sorria pouco.
Mas, na presença dela, esses sorrisos estavam se tornando cada vez mais frequentes.

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