Eduarda ergueu a cabeça, encarou Franklin nos olhos e disse, com firmeza:
— Pode ser que você tenha razão sobre tudo o que aconteceu no passado. Mas dessa vez você está errado. Talvez eu não seja mais a mesma pessoa de antes, afinal, eu perdi a memória, não é?
Franklin demonstrou surpresa ao perceber que ela já estava ciente de sua própria condição médica.
— O Cícero te contou. Ele quer forçar você a lembrar que o amava, não é? E de quebra, provar que eu fui um egoísta.
Com um sorriso irônico, ele continuou:
— É verdade, eu fui egoísta. Mas perto do egoísmo do Cícero, o meu é o mais puro e limpo possível.
Eduarda também ficou surpresa por Franklin ter deduzido tão rápido não só que Cícero era a fonte da informação, mas também quais eram as verdadeiras intenções dele.
Naquela noite, Franklin não queria saber de mais nada. Estava decidido a revelar todo o passado, mesmo que isso o fizesse parecer alguém manipulador. Qualquer coisa era melhor do que ficar parado assistindo Eduarda escapar por entre seus dedos.
Mais do que isso, a angústia de perdê-la o queimava por dentro, assim como o medo constante de que Cícero pudesse machucá-la de novo.
— As segundas intenções dele, aos meus olhos, são desprezíveis. Ele jura que te ama hoje, mas durante todo o tempo em que estiveram casados, ele não te deu o mínimo de valor por um segundo sequer. Ele pisoteou e humilhou os seus sentimentos. E junto com a Weleska, os dois estraçalharam sua mente e o seu corpo até não sobrar quase nada.
— Quando não sabia amar, ele brincava com o seu coração e o jogava no chão. E agora, que diz ter se apaixonado, ele simplesmente quer o seu amor de volta. Eduarda, eu não acredito que ele vá te fazer bem. Não acredito que ele possa te trazer felicidade. Eu testemunhei todo o sofrimento que ele te causou, e eu enlouqueceria se tivesse que ver você passar por tudo isso outra vez.
As palavras de Franklin confirmavam algo de forma muito clara: Cícero estava dizendo a verdade quando afirmou que um dia ela o amara profundamente.
Mas onde havia ido parar todo aquele amor? O que afinal acontecera para não sobrar absolutamente nada, a ponto de Franklin ter tanto pavor de vê-la cometer o mesmo erro?
Com um nó na garganta, Eduarda fez a pergunta:
— Franklin, me fale a verdade. O que aconteceu antes do meu acidente? Por que eu terminei nesse estado? O que causou essa confusão na minha mente e na minha memória? Eu preciso muito saber essa resposta.
Se ela descobrisse as noites de sofrimento por um amor não correspondido, se relembrasse a desolação de ter tido o coração reduzido a cinzas, e, acima de tudo, se lembrasse do segundo filho deles, que não teve sequer a chance de ver a luz do mundo...
Só de cogitar essa ideia, Cícero sentia o coração sendo assado numa fogueira.
Ele não podia deixar que Eduarda descobrisse. Se isso acontecesse, ele a perderia de novo e perderia até o direito de respirar o mesmo ar que ela.
Forçando-se a manter a calma, Cícero respondeu:
— Eu não quero, de fato. Mas você também não deveria querer.
Cícero cortou a conversa com Franklin e virou-se, abaixando a cabeça para olhar para Eduarda:
— Nós dois temos alguns assuntos para resolver. A noite está muito fria, entre e vá descansar. Eu lhe darei uma explicação depois.

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