Depois de fechar a porta devagar, Cícero pensou um pouco e foi até o quarto de Eduarda, batendo na porta.
— Já dormiu, Eduarda? Preciso conversar com você.
Por um bom tempo, ninguém respondeu. Ele bateu mais duas vezes e repetiu a pergunta.
Parecia que Eduarda não tinha a menor intenção de lhe dar atenção, mas Cícero não desistiu. Ficou do lado de fora e disse através da porta fechada:
— O Arthur não fez isso de propósito hoje; ele está com febre. Crianças não sabem diferenciar se estão irritadas por doença ou só de mau humor, elas só ficam manhosas. Não culpe o Arthur.
Lembrando-se das coisas que Arthur havia dito, Cícero sentiu-se inquieto.
— E também não leve a sério as coisas que o Arthur disse, ele apenas...
— Ele apenas o quê?
A porta se abriu bruscamente. Eduarda estava diante dele usando óculos de armação metálica. Era evidente que estava trabalhando, pois só usava óculos nessas ocasiões.
Cícero não terminou a frase, preferindo dizer:
— Desculpe por atrapalhar o seu trabalho.
Como já havia atrapalhado, não fazia sentido Eduarda reclamar.
— Como o Arthur está agora? — ela perguntou.
— Tomou soro e agora está dormindo. Parece estar melhor.
Eduarda assentiu. Era o filho dela, não chegaria ao ponto de ignorá-lo completamente quando estava doente. Ao saber que ele estava bem, ela se tranquilizou.
Percebendo que a expressão dela havia suavizado um pouco, Cícero continuou:
— O Arthur só falou aquelas coisas hoje porque estava confuso de febre. Ele não pensa daquele jeito, ele te ama muito.
Eduarda cruzou os braços e o encarou:
— Você está me culpando?
Cícero balançou a cabeça.
Eduarda sorriu. Um sorriso suave, mas carregado de segundas intenções, que Cícero não conseguiu decifrar no momento.
Ela ergueu uma das sobrancelhas e disse:
— Já que sabe que eu tenho um coração duro, por que não leva o seu filho e fica longe de mim, para que não nos incomodemos mais? Não seria melhor assim?
A luz nos olhos de Cícero se fragmentou, dando lugar a uma profunda melancolia.
Ele olhava para a mulher à sua frente, incapaz de tomá-la em seus braços.
Mesmo sabendo que ela era feita de gelo, uma rosa cheia de espinhos, ele ainda desejava caminhar em direção a ela sem hesitar.

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