— Já que vocês dois estão nessa mesma sintonia, o tio Roberto fica feliz por vocês. Imagino que o seu avô também ficaria bastante contente com a notícia. — Roberto soltou um leve chiado entre os dentes, parecendo lembrar de algo. — Mas... e quanto à Weleska? Eu me lembro que, na época em que a Eduarda sofreu o acidente de carro e ligou pedindo socorro, você simplesmente não a ajudou porque queria ir para o exterior se casar com a Weleska. Cícero, isso realmente aconteceu, não é?
Ao ouvir isso, o coração de Cícero apertou logo; seus olhos se voltaram para Eduarda na mesma hora.
Mas ela permaneceu impassível. Escutara as palavras de Roberto até o final sem manifestar nenhuma surpresa ou objeção.
Cícero apertou a mão dela com mais força, porém, o que encontrou não foi o calor reconfortante, mas uma frieza gélida em seus dedos que ele não conseguia aquecer.
Todo o corpo de Cícero tremiu um pouco; esse incidente era o passado que ele mais odiava lembrar.
Só de imaginar Eduarda desamparada no acidente, ele ficava cheio de dor. Ele se odiava por não ter corrido de imediato para resgatá-la.
E, acima de tudo, aquilo havia lhes custado o segundo filho deles, uma pobre criança que sequer teve a chance de dar uma olhada neste mundo.
Essas eram cicatrizes sangrentas e irreparáveis. Se ele próprio não conseguia se perdoar, que tipo de pensamentos torturariam Eduarda, a pessoa que não se esqueceu de nada? Ele temia ir fundo nesse raciocínio, consciente de que jamais fugiria da culpa.
Havia muito tempo que Cícero se recusava a tocar nesse assunto. Mas estando diante de Roberto, um homem que claramente se posicionava como adversário, era óbvio que o tio usaria essa ferida exposta para atacar as vulnerabilidades deles.
Cícero tentou recuperar o autocontrole. Ao falar, não demonstrou a menor hesitação ou fraqueza:
— Tio Roberto, o que está feito, está feito, não há como remediar. A Eduarda e eu já não nos importamos mais tanto com isso. Quanto a Weleska, nós já seguimos caminhos diferentes há um bom tempo.
Ele levou a mão de Eduarda até o peito, mantendo o olhar mergulhado em um mar de devoção:
— Sou extremamente grato pela Eduarda ter me perdoado. Vou valorizá-la muito e prometo nunca mais soltá-la.
Ele se aproximou um pouco mais dela. A distância encurtou tão rapidamente que podiam quase sentir o ritmo da respiração um do outro. As pupilas de Cícero eram de uma profundidade capaz de sugar qualquer um para dentro delas.
— Não é verdade, Eduarda? — A voz rouca dele soava incrivelmente doce, quase como se fosse envolta em mel. Quando aquele rosto incrivelmente bem contornado a fitou, nenhuma palavra sobre profundo afeto seria exagero para descrever o momento.
Roberto jogou a cabeça para trás, parecendo pouco se importar com o tema.
— Eu conversei com o Evandro. Ele se recusou a aceitar e eu não quis forçar para não criar inconsistências financeiras nos registros da empresa. De qualquer forma, mandei que arranjassem algumas outras coisas que ele aprecia como forma de presente.
O olhar de Cícero se abaixou. Os cantos de sua boca arquearam-se em um aceno:
— Nesse caso, imagino que o tio Roberto não tenha deixado o Sr. Castro na mão. Fico mais aliviado.
Só após finalizar o rodeio, Cícero estreitou ligeiramente os olhos, atacando o que realmente lhe interessava.
— Tio Roberto, eu sei que o Sr. Castro sempre teve um desempenho excelente. Ele se envolveu em um projeto imobiliário de aquisição de terras comandado pelo senhor. Esse projeto havia acabado de passar pela fase inicial e o contrato já estava assinado. Quando a aprovação chegasse, o Sr. Castro tinha tudo para se tornar o diretor dessa obra. Contudo, justamente no momento em que as coisas iriam começar, ele pediu demissão do Grupo Machado. O senhor não acha isso extremamente peculiar, tio Roberto?
A cor do rosto de Roberto se alterou um pouco, e a breve ruga que se formou em sua testa foi imediatamente capturada pelo olhar incisivo de Cícero.

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