Roberto sorriu de forma maliciosa e respondeu:
— Ótimo. Faz tempo que não converso bem com a Eduarda. Pode chamá-la para se juntar a nós.
Cícero concordou com um aceno e se levantou.
Damiano prontamente interveio:
— Sr. Machado, eu vou chamar a senhora. Pode continuar sentado e esperar aqui.
— Não é necessário — Cícero fez um gesto com a mão. — Eu mesmo vou. Sirva mais chá ao vice-presidente.
Cícero saiu da sala de reuniões com passos largos, caminhou até a porta do seu próprio escritório e, depois de bater simbolicamente duas vezes, empurrou-a. Seus olhos se encontraram imediatamente com os de Eduarda, que ainda assistia à transmissão ao vivo.
— Você ouviu tudo. Tem vontade de ir até lá? — Cícero perguntou em vez de apenas ordenar que fosse.
Eduarda olhou para cima com um toque de deboche e disse:
— Você estava tão firme na sala de reuniões, por que não fala comigo assim também?
Cícero soltou um riso contido:
— Era só atuação para quem estava de fora. Eu jamais ousaria mexer com você.
Eduarda sentiu como se estivesse batendo em uma parede de algodão e não soube o que responder. O ditado dizia que não se bate em quem está sorrindo. Ela não fazia ideia de onde Cícero havia aprendido aquilo, mas ele parecia aplicar o método com muita naturalidade.
Sem argumentos, Eduarda fechou a tampa do notebook e caminhou até ele:
— Vamos logo. Preciso ajudar você a atuar nesse teatro.
Os cantos da boca de Cícero se ergueram. Ele tomou a frente e abriu a porta para ela.
Assim que entrou na sala de reuniões, o rosto de Eduarda assumiu instantaneamente um sorriso profissional. Ao ver Roberto, cumprimentou-o com a postura de alguém mais jovem respeitando um veterano:
— Tio Roberto, como tem passado? Fazia tempo que não nos víamos. Espero que esteja com boa saúde.
Roberto retribuiu:
— Vou bem. Também faz muito tempo que não a vejo, como estão as coisas?
Enquanto falava, Roberto tentava escanear a expressão de Eduarda em busca de qualquer mínima pista.
Eduarda franziu levemente a testa. Será que esse homem estava levando tudo aquilo a sério?
Sem paciência para lidar com os pensamentos ilusórios dele naquele momento, ela pisou de leve no sapato de couro de Cícero com o bico do salto alto, um claro aviso para que ele voltasse à realidade.
O leve e quase provocante incômodo da dor foi suficiente para afastar as fantasias românticas que flutuavam na mente dele.
Ao retornar a si, Cícero lembrou-se friamente de que Eduarda estava apenas atuando.
Ainda que as palavras que acabara de ouvir fossem falsas, Cícero queria, no fundo da alma, que ela pudesse mentir daquela forma para ele pelo resto da vida.
O ardor no olhar dele se apagou. Quando ergueu o rosto novamente, todas as emoções já estavam perfeitamente ocultas.
Ele puxou a mão de Eduarda, envolvendo-a na sua, e declarou:
— Sim. Sou muito grato por ela ter perdoado meus erros do passado. No futuro, farei tudo para compensá-la e cuidarei bem dela por toda a vida.
Eduarda olhou para ele de rabo de olho, encarando aquela declaração apenas como um ruído sem qualquer significado.
Vendo o casal trocar demonstrações de afeto, Roberto achou melhor não comentar mais nada.

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