Cícero disse:
— O que Evandro mais valoriza agora são Elisa e Wilmar. Suspeito que o afastamento dele do Grupo Machado esteja de alguma forma ligado aos dois.
Eduarda assentiu:
— Você acha que o seu tio Roberto exerceu pressão sobre Elisa e Wilmar, forçando o sempre cauteloso Evandro a abandonar o grupo e perder uma posição tão vantajosa?
Cícero ergueu ligeiramente uma sobrancelha:
— Não foi exatamente isso que você pensou?
Cícero decifrou os pensamentos dela com muita facilidade, o que não agradou muito a Eduarda.
Eduarda parou de repente, manteve-se firme no lugar e disse a Cícero com expressão severa:
— Você pode usar Elisa e Wilmar como ponto de partida, se quiser, mas não brinque com os sentimentos deles. Esse é o meu limite, e exijo que você o respeite.
Cícero também parou, virou-se e abaixou a cabeça para encará-la; seu olhar revelava uma mágoa e um pesar impossíveis de esconder.
Ele perguntou:
— Eduarda, no fundo, você me vê apenas como alguém mesquinho, capaz de se aproveitar dos sentimentos dos outros?
O que Cícero mais desejava era ouvir uma resposta negativa.
Ninguém gostaria de ter uma imagem assim diante da pessoa amada.
Eduarda notou a expressão de Cícero, mas achou que não tinha obrigação de se importar com aquilo.
Ela respondeu friamente:
— O que eu acho de você não tem importância. Apenas não faça nada que ultrapasse os meus limites.
Acima de tudo, ela jamais se prestaria a explorar a sinceridade de alguém.
Elisa e Wilmar tinham sido totalmente francos em suas interações e brincadeiras naquele dia, e pessoas com um coração tão puro não mereciam ser traídas.
Aqueles que brincam com a boa-fé alheia devem sempre receber o que merecem.
As palavras de Eduarda machucaram Cícero de verdade; ele sentiu o coração apertar novamente.
A Eduarda de hoje era completamente diferente daquela do passado.
A A antiga Eduarda era sempre afetuosa e compreensiva; estar perto dela sempre lhe trazia conforto.
Cícero compreendia que, naquela época, Eduarda preservava os sentimentos dele, evitando palavras ríspidas ou excessivamente diretas.
Mas agora era diferente: Eduarda dizia tudo sem medir as palavras, por uma única razão: ela já não se importava muito com ele.
Ao chegar a essa constatação, Cícero sentiu o peito apertar de dor.
Eduarda observou as mudanças ao longo do caminho. O que antes era uma zona rural esquecida, agora fora transformada em uma paisagem com águas cristalinas e vistas deslumbrantes, um refúgio natural muito procurado por quem queria escapar da correria da cidade.
Diante dos olhos de Eduarda, misturavam-se lembranças do passado e do presente.
Eduarda comentou:
— Era aqui que você queria me trazer? Está muito lotado, melhor deixarmos para lá.
Não é que ela detestasse lugares assim; na verdade, ela não estava no clima. Os acontecimentos dos últimos dias haviam esgotado seu estado de espírito, deixando-a sem energia para enfrentar multidões e barulhos.
Cícero balançou a cabeça e disse:
— Não é aqui.
Ele seguiu dirigindo adiante. A movimentação de pessoas começou a diminuir gradualmente, e os arredores, quase sem construções, cederam lugar a uma vasta paisagem natural.
Mais adiante, Eduarda avistou um trecho extenso do litoral, parcialmente cercado, porém preservando um aspecto quase intocado.
Eduarda murmurou:
— Aqui...
Olhando para a imensidão do oceano à sua frente, um misto complexo de sentimentos tomou conta de seu coração.

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