Cícero entrou logo depois, segurando os presentes. Ele notou que a atitude do administrador da casa e dos outros empregados para com Eduarda era como se ela fosse a jovem senhora da própria família, uma verdadeira filha.
Cícero percebeu subitamente que a Eduarda, a quem ele no passado ignorara e tratara com tanta frieza, aos olhos dos outros era a garota mais mimada e uma filha guardada como um tesouro precioso.
Naquela época, a disposição de Eduarda em permanecer ao lado dele e suportar a indiferença resumia-se a uma única palavra: amor.
Quanto mais pensava nisso, mais Cícero sentia o coração doer.
O que ele havia feito afinal? Por que só percebia as coisas depois de perder a pessoa que mais deveria ter tratado bem?
Cícero soltou um suspiro quase inaudível e, ao levantar a cabeça, encontrou os olhos de Eduarda.
Eduarda o encarou, dizendo como um aviso:
— Quando a professora descer, não fale bobagens. Ela já se preocupou bastante com os nossos problemas, então não diga nada que possa irritá-la.
A expressão no rosto de Cícero congelou por alguns segundos, deixando-o visivelmente sem graça.
Cícero não conseguiu evitar de perguntar:
— Eduarda, como eu ainda faria algo para te magoar?
Tudo o que ele estava fazendo agora parecia não significar nada aos olhos de Eduarda. Se ela ainda fazia esse tipo de pergunta, era sinal de que continuava a não acreditar na sinceridade dele.
O que poderia ser mais constrangedor do que, após tantos esforços, a outra pessoa ainda não aceitar, ou simplesmente não querer ver?
Cícero implorou, com os olhos cheios de uma dor de luta e impotência:
— Por que você não pode tentar acreditar em mim apenas uma vez, Eduarda?
Mas Eduarda não sentiu que deveria fazer algo a respeito.
Eduarda deu uma risada fria e respondeu:
— Cícero, não faz sentido você dizer isso. Que obrigação eu tenho de acreditar em você?
Foi como uma flecha no coração.
Cícero sentiu uma vergonha constrangedora e uma profunda indignação.
Ele cerrou os punhos com força e franziu a testa ao olhar para Eduarda. Alguns segundos depois, respirou fundo e o seu rosto voltou a exibir um sorriso que parecia leve e despreocupado.
Ele disse:
— Não tem problema, ainda temos muito tempo pela frente. Com o tempo, você confiará em mim.
Não se sabe para quem Cícero queria dizer essas palavras, talvez fosse apenas para hipnotizar a si mesmo.
Ela perguntou:
— A vida no exterior foi difícil? Por que não contatou a sua professora? Eu poderia ter ido cuidar de você.
Zenilda inicialmente queria fingir estar zangada e dizer palavras duras para assustar Eduarda, mas, ao ver a aparência magra e exausta dela, não conseguiu dizer nenhuma inverdade. Só saíram palavras de uma dor sincera.
Eduarda continuou de cabeça baixa e respondeu:
— Eu... naquela época, não consegui entrar em contato com a senhora, por isso demorei tanto, por isso demorei tanto.
Eduarda não planejava deixar Zenilda saber que tinha sofrido um acidente de carro e ficado em coma por tanto tempo. Ela não queria que a professora continuasse se preocupando.
Eduarda perguntou, criando um pouco de coragem:
— Antes de ir para o exterior, eu lhe prometi que contaria se algo acontecesse. No fim, fui teimosa como sempre. A senhora me culpa, professora?
O pouco de raiva no coração de Zenilda já havia desaparecido. Ela abraçou Eduarda, que se aninhou no ombro caloroso e maternal da professora, sentindo o coração aquecer.
Zenilda acariciou os cabelos de Eduarda lentamente e respondeu:
— Menina boba, que mãe ficaria realmente zangada com a própria filha? O importante é que voltou. Fique comigo por um tempo. Vou pedir que preparem umas refeições mais nutritivas para você, para recuperar as forças; você precisa comer coisas mais nutritivas.

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