Eduarda terminou de descer os degraus. Quando Arthur ergueu os bracinhos pedindo colo, ela se inclinou e o abraçou, mas não prolongou o contato. Logo o soltou.
— Pronto, vamos jantar — disse ela.
Ela se endireitou e virou-se sozinha em direção à sala de jantar.
Observando-a se afastar, Arthur baixou os bracinhos com um ar de decepção e olhou para Cícero:
— Papai, por que a mamãe parece estar diferente? Ela não gosta mais de mim como antes?
Se até o pequeno Arthur havia percebido, Cícero não fazia ideia de como explicar que Eduarda de fato havia mudado.
— Claro que não, filho. A mamãe ainda ama você — respondeu Cícero. — Ela só está um pouco exausta. Não vamos incomodá-la enquanto ela descansa, combinado?
Ao ouvir a explicação, Arthur pareceu compreender a situação:
— É verdade! A mamãe acabou de voltar e deve estar muito cansada. Vamos deixá-la descansar bastante, papai.
Cícero apenas assentiu.
Pai e filho observaram, em silêncio, a figura solitária de Eduarda sentar-se à mesa. Havia um desconforto e uma tristeza palpáveis entre eles, mas o receio de desagradá-la os fez engolir as próprias inseguranças e culpas antes de se aproximarem da mesa de jantar.
Arthur assumiu o seu lugar, bem ao lado de Eduarda, enquanto Cícero se sentou de frente para ela.
Cícero fez um leve aceno para o administrador da casa, que imediatamente orientou a equipe para que servissem um caldo.
O administrador da casa serviu o caldo diretamente para Eduarda, anunciando com extremo respeito:
— Senhora, por favor, prove isto. É um caldo nutritivo especial que o senhor encomendou exclusivamente para ajudar a acalmar os seus nervos e recuperar a vitalidade.
Eduarda fitou a tigela impecavelmente servida à sua frente. Embora os ingredientes frescos estivessem visivelmente apetitosos, ela não fez qualquer menção de provar.
Arthur, já segurando o seu talher, inclinou a cabeça e perguntou baixinho:
A mão de Eduarda, que segurava o talher, paralisou no ar. Ela ergueu o rosto para olhar o homem à sua frente, e sua mente começou a divagar mais uma vez.
Não era verdade que ela não tinha gostado do sabor. Com as habilidades de um chef renomado, a qualidade da receita era indiscutível.
O problema era que aquele simples prato lhe trazia uma enxurrada de memórias.
Quando viviam no exterior, Franklin sempre se empenhava ao máximo para fortalecer a saúde e a imunidade dela. Preocupado com o fato de ela comer pouco, ele cozinhava ingredientes altamente nutritivos até transformá-los em caldos ricos e revitalizantes.
Franklin nunca encarava aquilo como um fardo. Era comum que ele passasse horas trancado na cozinha, dedicando uma quantidade imensa de tempo e esforço para o lento preparo das receitas. Naquela época, ele ignorava completamente o mundo exterior, concentrando-se única e exclusivamente em preparar aquelas refeições curativas com as próprias mãos.
Ao recordar daqueles tempos idos e confrontar o fato de que o homem à sua frente não era ele, Eduarda sentiu um aperto no peito e uma ardência na ponta do nariz, inundada por uma tristeza amarga.
Quantas ironias impiedosas o destino ainda os forçaria a enfrentar?
Era como se cada um deles fosse uma mera peça num intrincado jogo de xadrez da vida, aprisionados por suas próprias impotências e pelos desejos inalcançáveis.

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