O olhar de Franklin paralisou por dois segundos antes que ele franzisse levemente a testa e respondesse:
— Se eu estivesse com você o tempo todo, talvez você não tivesse sofrido aquele acidente de carro tão grave. A culpa é minha. Se eu a estivesse acompanhando, talvez no dia seguinte nós pudéssemos ter ido ao nosso compromisso normalmente.
Ele ainda carregava uma imensa culpa. O dia seguinte ao acidente era a data marcada para o procedimento do aborto. Se ele estivesse ao lado dela desde antes, talvez o desastre pudesse ter sido evitado e ela não teria se machucado tanto.
Eduarda pareceu perceber a melancolia nas palavras dele, mas não conseguia se conectar àquela emoção.
Com uma expressão genuína de confusão, ela perguntou:
— Acidente de carro... dia seguinte... que compromisso?
Ao ouvir aquilo, Franklin ergueu o rosto e se deparou com a expressão perplexa dela.
Ele ficou em silêncio, ponderou por um instante e perguntou, cauteloso:
— Você se lembra do que foi fazer ou onde o acidente aconteceu?
Eduarda forçou a memória e, devagar, explicou:
— Acho que... eu estava dirigindo para espairecer um pouco na estrada da serra, quando perdi o controle e bati em um pequeno caminhão de carga.
Ao escutá-la, Franklin sentiu um frio percorrer sua espinha. Ele a observou com atenção, mas não encontrou o menor traço de mentira em seu rosto.
Os fatos do acidente estavam corretos, o resultado também, mas a motivação inicial que ela descreveu não batia com a realidade.
Apontando para o próprio peito, ele perguntou:
— E você se lembra de quem eu sou?
Eduarda riu, achando que ele estava fazendo uma brincadeira.
— Franklin, o que deu em você? Por que essa pergunta agora? Você é meu amigo! Acha que por ter dormido tanto eu esqueci de tudo?
Ele a encarou, ainda mais intrigado.
O que estava acontecendo com ela?
Aquela era a mesma Eduarda de sempre, e, ao mesmo tempo, parecia haver algo fundamentalmente diferente nela.
Sem esconder a confusão, ele insistiu:
— Você não lembra do que nós faríamos no dia seguinte ao acidente?
No dia seguinte, depois de conversar mais um pouco com ela e garantir que estivesse descansando, Franklin foi procurar o médico.
Sentado em frente ao especialista, ele relatou:
— Desde que ela acordou ontem à noite até agora, conversando com ela, percebi que há uma discrepância nas memórias. Os fatos finais estão todos corretos, mas a causa e o contexto não. Parece que ela reteve apenas as partes felizes das lembranças. Quando o motivo original era ruim, ela parece ter criado uma versão romantizada que nunca existiu. É como se todas as memórias dolorosas tivessem desaparecido.
O médico ouviu atentamente, abriu o prontuário de Eduarda no computador e sugeriu:
— Faremos o seguinte: vamos solicitar uma bateria completa de exames neurológicos para a Sra. Barbosa e, depois, farei uma avaliação clínica mais detalhada para analisarmos isso.
— Certo — concordou Franklin. — Mas, por favor, não comente nada disso com ela por enquanto. Não quero que ela sinta qualquer tipo de pressão.
— Entendido. Sem problemas.
Então, Franklin acompanhou Eduarda para realizar os testes.
— São apenas exames de rotina, não se assuste — disse ele, sem dar maiores explicações.
Como Eduarda não estava se importando muito com aqueles detalhes técnicos, aceitou todos os procedimentos e a consulta com o médico com bastante naturalidade.
Observando-a, Franklin notou que ela não parecia ter sido afetada negativamente em nada. Na verdade, seu semblante estava muito mais leve do que antes do acidente.

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