Porém, naquele exato momento, Cícero já estava a bordo do jato particular de volta ao Brasil, uma aeronave requisitada em caráter de urgência absoluta.
Cícero estava incapaz de se sentar ou ficar quieto a milhares de metros de altitude, com os olhos transbordando uma mistura de terror e agonia.
Damiano tentava confortá-lo ao seu lado para que ele pudesse se acalmar.
— Sr. Machado, talvez tenham exagerado, e talvez a Sra. Barbosa não esteja em um estado tão grave, pode ser apenas um mal-entendido.
Mas essas palavras não foram suficientes para convencer Cícero, que exigiu mais uma vez.
— Repita exatamente o que eles disseram.
Damiano pensou por um momento antes de relatar a verdade.
— Nossos contatos disseram que a Sra. Barbosa pode ter sofrido um acidente de carro, que foi resgatada, precisou ser reanimada e agora está sob observação na UTI, mas o hospital ainda não deu um diagnóstico preciso sobre a situação dela.
Cícero sentiu as palavras cortarem seu coração como uma lâmina afiada mais uma vez.
Qualquer um sabia muito bem que, se a situação não fosse desesperadora, ela jamais estaria internada em uma Unidade de Terapia Intensiva.
Estar lá dentro significava que sua condição era instável e que o pior poderia acontecer a qualquer segundo.
E todos compreendiam perfeitamente o quão trágico seria o pior.
O que exatamente Eduarda estava fazendo e onde ela estava para se envolver num acidente como aquele.
Eles haviam se visto há tão pouco tempo, e naquela ocasião, Eduarda estava perfeitamente saudável.
Ele se recusava a acreditar que Eduarda estava gravemente ferida, e mesmo se estivesse, tentava se convencer de que não corria risco de vida, porém, os nós dos dedos esbranquiçados de tanto apertar as mãos revelavam o pânico que o consumia.
Tudo o que ele queria agora era voar o mais rápido possível através do oceano e pousar diretamente no hospital brasileiro.
—
Do lado de fora da UTI, Franklin estava com as mãos ensanguentadas e as roupas manchadas de sangue, parecendo completamente miserável, uma imagem que entrava em forte contraste com a sua figura habitual de um cavalheiro educado.
Ele estava de pé em frente à unidade, observando a situação lá dentro através de pesadas camadas de vidro.
No interior do quarto, Eduarda estava deitada na cama de olhos fechados, sem a menor alteração em sua expressão; se não fossem os inúmeros tubos e a máscara de oxigênio em seu corpo, os monitores ao seu redor e os médicos e enfermeiras trabalhando incessantemente, Franklin realmente acreditaria que ela estava apenas dormindo.
Seu olhar estava fixo na mulher pálida e magra na cama, com o coração inundado por uma mistura avassaladora de culpa e piedade.
Se ele estivesse com Eduarda o tempo todo, talvez ela nunca tivesse acabado naquele estado.
Ele nem sequer se importou com o desrespeito de Franklin, concentrando-se puramente na necessidade obsessiva de entender o estado atual de Eduarda e descobrir o que a havia deixado daquela maneira.
Com os olhos injetados de sangue por conta da falta extrema de sono, Cícero fuzilou Franklin com o olhar e exigiu.
— Como ela foi parar nesse estado!
Cícero avaliou as roupas sujas de Franklin e o ambiente ao redor, antes de concluir.
— Vocês sofreram um acidente de carro juntos?
Como aquilo pôde terminar de forma tão grave?
O olhar de Franklin transbordava o mesmo tormento.
— Quem dera eu estivesse com ela no momento do acidente, pois assim ela jamais teria agonizado até quase dar o seu último suspiro!
Franklin sentiu uma vertigem avassaladora ao lembrar do momento em que recebeu a ligação da polícia.
Quando ele chegou à cena sob a chuva torrencial, Eduarda estava largada sobre uma poça de sangue aterrorizante, que a polícia já tentava cobrir; no entanto, ao se aproximar e tocá-la, sentiu o corpo dela encharcado de água da chuva e sem o menor resquício do calor de uma pessoa viva, sendo de um frio tão cadavérico que lhe causou arrepios até a alma, fazendo-o duvidar se ela ainda estava respirando.

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