Entrar Via

Diamantes e Cicatrizes romance Capítulo 352

Uma cerimônia daquela magnitude era a prova cabal do prestígio inabalável que a futura Sra. Machado detinha.

Com a voz embargada pela sinceridade, Eduarda resolveu expor a ferida.

— Arthur, eu vim aqui hoje exatamente para te contar a verdade de forma oficial. Eu já me divorciei do seu pai, a papelada será finalizada em breve. Eu não tive coragem de dizer isso antes, estava apenas aguardando o momento certo.

O choque de ouvir a palavra divórcio caindo dos lábios da própria mãe esmagou o pequeno coração do menino com uma melancolia avassaladora.

Ele já havia escutado histórias de amiguinhos da escola cujos pais se separaram, resultando em crianças que se transformavam em fardos indesejados e abandonados por ambos os lados de maneira miserável.

Ele piscou atônito enquanto espessas lágrimas de cristal se acumulavam nas bordas de seus olhos escuros.

— Mamãe, por que você precisava se separar dele? Eu sempre achei que vocês ficariam juntos para sempre.

Aquela súplica de desespero apagou o último vestígio de complacência no rosto de Eduarda, substituindo-o por uma seriedade impenetrável.

Ela se inclinou na mesa, cruzando as mãos sobre a superfície polida.

— Arthur, eu compreendo que você ainda é pequeno e que o mundo dos adultos é confuso, mas existe um princípio chamado honra. Quando a honra de alguém é manchada de forma imperdoável, a confiança morre. Essa é uma lição de caráter que você precisa aprender para a sua própria vida, você consegue entender?

Ela respirou fundo antes de continuar a sentença definitiva.

— Quando duas pessoas se casam, a lealdade é fundamental. Sem isso, um casamento não se sustenta. O seu pai escolheu trazer a Weleska para dentro da nossa história, e um casamento nunca sobrevive com três pessoas dentro dele. O divórcio não foi um acidente, foi a única consequência lógica.

Arthur paralisou, com os lábios trêmulos projetados para frente, absorvendo o veneno daquelas verdades que ele mal conseguia digerir.

Eduarda não possuía meios de mensurar a capacidade de compreensão de um intelecto infantil perante uma traição tão complexa.

Ela suavizou o timbre de voz na esperança de confortá-lo.

— O importante é que, independentemente desse papel assinado pelo juiz, eu nunca desaparecerei por completo da sua vida. Sempre que a saudade bater forte, nós marcaremos encontros divertidos como esse de hoje.

Ela proferiu as promessas com uma placidez invejável, analisando as microrreações no semblante frágil do garoto.

O rosto de Arthur era um turbilhão caótico de emoções silenciosas, escondendo os pensamentos que orbitavam em sua mente juvenil.

Em um sussurro sufocado por uma dúvida antiga, o menino balbuciou o que mais temia.

— Isso significa que você nunca mais vai dormir na nossa mansão?

A resposta dela cortou o ar como um machado invisível, incisiva e irrevogável.

— Nunca mais. Aquele lugar perdeu o direito de ser chamado de minha casa.

As lágrimas recomeçaram a ameaçar cair quando ele emendou outra pergunta dolorosa.

— Então o meu destino é morar apenas com o papai de agora em diante?

Ela engoliu a amargura seca que arranhava sua garganta.

— Sim. Ficar sob a proteção do seu pai é o caminho mais seguro para você. A família Machado fará de tudo para garantir que você tenha um futuro brilhante e cheio de privilégios.

A sua simples presença imóvel exalava uma estética magnética que sequestrava a atenção de quase todos os turistas que transitavam pela praça de alimentação.

Um sorriso de escárnio dançou nos lábios de Eduarda ao notar as mulheres eufóricas se aglomerando para tentar puxar assunto com Cícero.

A casca escultural daquele homem era uma armadilha fatal para corações ingênuos, afinal, ela mesma fora capturada por essa miragem deslumbrante no passado, cegada pela perfeição irretocável daquele rosto.

No entanto, o preço a se pagar para descobrir o oceano de crueldade e gelo que habitava as profundezas daquela alma era alto demais, capaz de triturar qualquer centelha de admiração inicial até reduzi-la a pó.

Eduarda havia percorrido todos os estágios do calvário para tatuar na própria consciência que a simetria de um rosto jamais determinaria a grandiosidade de um caráter.

A verdadeira virtude residia na nobreza de um coração puro e disposto a tratar os outros com dignidade, não na loteria da genética humana.

Para ela, a embalagem estonteante de Cícero havia se tornado um mero lembrete das piores decisões de sua vida, provocando apenas uma profunda e irremediável decepção.

Para ela, Cícero passava longe de ser uma boa pessoa cujo toque só havia semeado dor e destruição em sua jornada.

Notando que os olhos da mãe acompanhavam o pai de longe, Arthur encheu o peito de coragem e gritou em direção à calçada.

— Papai, venha rápido até aqui! Eu comprei uma água de coco geladinha para você, vem beber com a gente!

Os pés de Cícero hesitaram no asfalto enquanto os seus olhos buscavam freneticamente a permissão de Eduarda.

No entanto, a mulher já havia virado o rosto, enterrando-o no mais absoluto silêncio e retirando qualquer atenção voltada a ele.

Um riso seco e recheado de amargura escapou da garganta do homem antes que ele rompesse a inércia e marchasse rumo à mesa.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Diamantes e Cicatrizes