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Diamantes e Cicatrizes romance Capítulo 353

Cada passo de Cícero era calculado milimetricamente, monitorando a paisagem inexpressiva do rosto de Eduarda em busca de respostas invisíveis.

O seu cérebro de estrategista trabalhava em ritmo febril para forjar alguma atitude que pudesse quebrar a barreira de gelo espesso que ela erguera contra ele.

Contudo, o grau de indiferença espiritual que ela atingira tornava inútil até a mais brilhante das suas artimanhas.

Uma espessa névoa de luto incurável escureceu as íris magnéticas de Cícero.

O menino se espremeu no banco estofado para ceder metade do espaço ao pai.

Com as pequenas mãos ágeis, ele arrastou o copo suado de condensação até o lado oposto da mesa.

A voz de Arthur quebrou a tensão palpável.

— Beba um pouco também, papai.

O rostinho rosado de Arthur oscilava entre os dois adultos como um pêndulo frenético, embriagado por um contentamento inocente de ter ambos ali.

O choque térmico do vidro gelado contra a pele de Cícero pareceu penetrar os seus vasos sanguíneos, congelando o próprio coração que batia fraco no peito.

Apenas naquele instante Eduarda decidiu erguer o rosto na direção dele.

O olhar que lhe devolveu era tão impiedosamente gélido e insondável quanto as profundezas de um oceano polar na ausência do luar.

O arrepio de pavor que escalou a espinha de Cícero foi instantâneo e devastador.

O desdém nauseante pelas manobras invasivas dele estava impresso em cada traço do rosto dela.

Com uma articulação fria que não deixava margem para segundas interpretações, ela verbalizou o ultimato.

— Sr. Machado, essa foi a última vez. Eu exijo que nunca mais interfira ou se intrometa nos momentos em que venho visitar o meu filho.

O ataque surpresa daquela manhã a deixara encurralada, incapaz de armar uma rota de fuga decente e impossibilitada de expulsá-lo.

Mas a repetição daquele pesadelo psicológico estava terminantemente vetada em seu calendário futuro.

As feições imponentes de Cícero murcharam como cinzas em uma ventania.

— O seu desprezo por mim chegou ao ponto em que não sobra mais nem uma mínima fagulha de tolerância para suportar a minha presença?

Encarando o abismo dos olhos escuros dele, ela confirmou a sentença sem pestanejar.

— Exatamente. Nenhuma.

A clareza letal daquela repulsa explodiu como dinamite nas fundações emocionais de Cícero, desencadeando um desmoronamento interno e ensurdecedor das suas esperanças.

Ele tinha consciência de que havia engatilhado a arma contra a própria testa ao fazer aquela pergunta suicida, mas a dor do impacto o havia paralisado.

Os dedos fortes cerraram-se dissimuladamente sob a mesa até os nós embranquecerem, numa impotência castradora.

Qual cartada mágica reverteria o ódio de uma mulher cujo amor fora estrangulado e enterrado por ele mesmo, que agora se recusava a libertar as mãos que ela lutava para soltar?

O ceticismo racional do magnata começou a rachar, abrindo espaço para a crença sombria de que o universo possuía um sádico senso de ironia cármica.

Há poucos meses, os passos obsessivos de Eduarda mapeavam as pegadas dele como uma sombra leal.

Agora, a inversão da polaridade os lançara em um jogo macabro onde a caça o repelia como a uma praga desprezível, ignorando a sua existência.

Aquela condenação ditava que os trilhos dos dois estariam eternamente fadados a correr em paralelos que jamais se encontrariam novamente.

Alérgico ao vácuo ensurdecedor que dominava a mesa, Cícero tateou a escuridão em busca de um fio de conversa neutro.

— Como você tem estado? Já se acostumou à rotina no escritório do Rafael?

As peças daquele quebra-cabeça medíocre encaixaram-se no instante imediato na percepção aguçada de Eduarda.

Os laudos médicos fajutos eram apenas engrenagens na teia brilhante da manipuladora chamada Weleska, engolida pelo egocentrismo colossal de Cícero, que jurava ter posse da verdade absoluta.

O pilar patético de todo aquele calvário era amarrado por uma ficção risível: Weleska jamais se atirara perante a morte para protegê-lo, inviabilizando qualquer lenda heroica sobre sequelas físicas crônicas.

A ironia cruel era que, no fim, quem quase perdeu o filho por causa das armações de Weleska foi a própria Eduarda.

A dimensão absurda e grotesca daquele circo cósmico gerou uma vontade incontrolável de explodir em gargalhadas sonoras.

O fato de Cícero, um homem blindado em genialidade corporativa, continuar sendo domado e cegado pelas ilusões vulgares da golpista era um espetáculo de estupidez de raríssima beleza.

Com a arrogância majestosa de quem varreu a poeira das solas dos sapatos, ela encerrou o teatro.

— A grande cerimônia do Sr. Machado dispensa a humilhação do comparecimento da ex-mulher jogada às traças no seu dia de glória. Logo, despejar as suas explicações trágicas no meu colo é de uma improdutividade cômica, considerando que eu não possuo o menor desejo de enviar qualquer bênção falsa ao novo casal.

A torrente retórica em defesa de seu sacrifício por Weleska soou aos ouvidos de Eduarda como o farfalhar vazio de um amontoado de mentiras inúteis.

O abismo intransponível engoliu o orgulho encurralado de Cícero, que mendigava no fundo da própria alma por um traço de empatia por parte dela.

Mas o choque de lucidez atroz explodiu as suas ilusões em migalhas incandescentes, pois que obrigação teria Eduarda de compreender ou de perdoar os dilemas mesquinhos do homem que a destruiu?

O massacre no coração do magnata era polarizado entre a lealdade moral da dívida inventada e o tsunami visceral da paixão que ele verdadeiramente nutria, gerando uma guerra emocional dilaceradora que lhe roubava o ar e a paz de espírito.

O limite tóxico daquela atmosfera insalubre empurrou Eduarda de volta à realidade, buscando o rosto do seu herdeiro ali ao lado.

— Arthur, já terminou de comer?

Com os dedos úmidos amassando as dobras do guardanapo sobre os lábios, o garotinho chancelou o convite com um aceno natural e passivo.

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