Se essa separação virasse um circo nos tribunais, a reputação da família Machado seria arrastada pela lama.
Por essa razão, era imperativo que Cícero colocasse um ponto final naquilo hoje.
Cícero finalmente engoliu a verdade de que a piedade de Eduarda havia se esgotado e que o seu único instinto era a fuga.
Ele já não tinha forças para segurá-la.
Quanto ao suposto sonho antigo mencionado por seu avô... ele já estava começando a duvidar da bússola do seu próprio coração.
Será que ele realmente havia amado Weleska durante todo esse tempo?
Era essa a imagem patética que o mundo tinha dele?
A luz apagou-se lentamente nos olhos de Cícero, substituída por uma fisgada aguda no peito, e ele suspirou, engolindo o amargor que arranhava a sua garganta.
Os seus olhos procuraram o rosto de Eduarda mais uma vez, desejando desesperadamente que ela o notasse com ternura, nem que fosse por um mero segundo.
No cenário atual, até mesmo um olhar compassivo havia se tornado um luxo inacessível.
Movendo a mão de forma arrastada e tomada por uma impotência inédita, ele finalmente traçou a sua assinatura no papel.
Os dois acordos receberam os rabiscos definitivos de ambas as partes, entrando oficialmente em vigor.
O martelo invisível do destino despencou com um estrondo ensurdecedor, selando o fim de uma era e o princípio de outra.
Encarando os dois nomes unidos pela última vez na folha de divórcio, os olhos de Eduarda arderam com a ameaça das lágrimas.
O pensamento de que estava finalmente liberta inundou a sua mente.
Nunca mais ela seria torturada pelas garras do afeto ilusório.
O seu pior erro havia chegado a um desfecho definitivo.
A mulher abriu um sorriso banhado em uma paz profunda.
Ela fixou o olhar em Adilson e as palavras saíram embargadas pela gratidão.
— Obrigada, vovô, por me conceder esta liberdade no dia de hoje.
Aquela frase soou perfeitamente igual ao dia fatídico ocorrido há seis anos.
O mesmo dia em que Adilson a forçara a caminhar até o altar para se casar com Cícero.
Naquela época, ela também havia proferido um agradecimento por ele realizar o desejo dela.
A grande diferença era que, após ser arrastada por enxurradas de alegrias rasas e oceanos de tristeza escaldante, a sua versão ingênua estava morta e dera lugar a uma mulher racional e madura.
As feridas do amadurecimento haviam sido vivenciadas em sua plenitude.
O seu peito não guardava um único traço de arrependimento pela atitude tomada.
Todas as desgraças vividas ao lado de Cícero seriam sepultadas para sempre no passado.
A contabilidade de quem estava certo ou errado, ou de quem devia desculpas a quem, já não tinha qualquer relevância.
A sua única missão era absolver a si mesma.
Ela apagaria as lembranças amargas e construíria um império de felicidade em seus próprios termos.
Na imensidão da palavra futuro, não existia mais espaço para a existência de Cícero.
Adilson balançou a cabeça em aprovação antes de instruí-los.
— Podem ir direto ao Cartório.
Em seguida, ele direcionou as ordens ao neto.
— Quando a burocracia terminar, volte aqui para conversarmos sobre a sua situação com a Sra. Castilho.
— Fale logo, o que você quer?
— Você insistiu em abrir mão da partilha de bens e sair sem nada, mas eu acho isso inaceitável, então te pagarei umpensão que será mais do que suficiente para garantir o seu sustento. — Declarou Cícero.
Eduarda sentiu vontade de rir do absurdo daquela cena.
— Eu já repeti inúmeras vezes que não quero o seu dinheiro, então por que você continua insistindo nisso? Por acaso você tem problemas de audição?
Diante dos questionamentos hostis, o interior de Cícero tremeu levemente.
A sua mente racional sabia que aquele comportamento beirava o desespero patético.
Mas a verdade irracional era que as suas entranhas reviravam de preocupação com o futuro daquela mulher.
Ou talvez, em seu íntimo covarde, ele apenas não suportasse a ideia de ter o seu vínculo com ela rompido para toda a eternidade.
Após os carimbos no divórcio, ambos passariam a ser absolutos desconhecidos andando pelas ruas da cidade.
Ele tinha plena consciência de que a presença dele causava ânsia nela.
Mas as amarras invisíveis do afeto já haviam estrangulado o coração do magnata.
Mesmo sendo estapeado pela rejeição a cada palavra dela, a sua alma se recusava a afrouxar o aperto.
Cícero reduziu o tom de voz até que soasse como uma súplica contida.
— Aceite o dinheiro como um pagamento por tudo o que eu te fiz sofrer durante esses anos, e deixe que eu repare os meus erros ao menos um pouco.
A resposta de Eduarda foi uma gargalhada genuína e vazia.
— Se você fosse pagar pelo que me deve, o dinheiro do mundo todo não seria suficiente, então guarde essa fortuna para você, porque eu lavo as minhas mãos disso tudo.
Quando se tratava de medir as dívidas emocionais, a conta já havia extrapolado qualquer saldo pagável.

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