Helena já estava acostumada com as travessuras do irmão.
Bento, ainda deitado, ergueu o queixo todo orgulhoso.
— Gostou da música? Eu cantei pra Alice há pouco e ela disse que minha voz é linda! — disse ele, sorrindo cheio de confiança.
Daniel soltou uma risadinha constrangida.
— Se você está feliz, Bento, então está ótimo.
Depois de se despedirem dele, Helena e Daniel saíram do quarto — e logo viram Ayrton Farias esperando no corredor.
O rapaz parecia abatido, o olhar cansado, como se tivesse passado noites em claro.
— Helena... posso conversar com você um minuto? — perguntou ele, a voz baixa e nervosa.
Helena assentiu.
— Claro.
Os dois se afastaram um pouco. Ayrton hesitou, sem jeito.
— Eu não devia procurar você, mas... não sei mais o que fazer. A Clara não quer me ver, não atende minhas ligações... Você pode me ajudar? Eu sei que o erro foi da minha família, mas eu... eu simplesmente não consigo desistir dela.
Helena observou o desespero verdadeiro no olhar dele e respondeu calmamente:
— Posso tentar ajudar, sim. Mas, Ayrton, no fim das contas, tudo depende da Clara. Se ela realmente quiser se afastar, não posso forçar nada.
Ele respirou fundo, aliviado.
— Só o fato de você tentar já me ajuda. Obrigado, Helena.
Pouco depois que Ayrton foi embora, Daniel se aproximou.
— Ele veio pedir ajuda por causa da Clara, não foi? E você aceitou? — perguntou com aquele tom protetor que só ele sabia usar.
Helena sorriu de canto.
— Aceitei. Tenho notado que a Clara está triste esses dias. Sei que ela gosta do Ayrton, mas se reprime por causa da família. Achei que talvez valesse a pena dar a eles uma chance de resolver o que sentem — assim, pelo menos, ela não fica com arrependimentos.
Daniel olhou para ela com ternura intensa, aquele tipo de olhar que falava mais do que mil palavras.
— O que quer que você decida, eu apoio — disse, e a voz saía carregada de carinho.
Na noite seguinte, Helena organizou um pequeno encontro num clube chamado Viva La Noche, um lugar animado e sofisticado, perfeito pra relaxar.
— Helena, acho melhor eu não ir... — disse Clara, indecisa. — São seus amigos, não os meus.
— Ah, vem comigo! Vai te fazer bem se distrair um pouco. — insistiu Helena, com aquele sorriso difícil de recusar.
E assim, Clara acabou cedendo.
Daniel, Tereza e alguns outros amigos já estavam lá quando chegaram.
— Clara! Que bom ver você! — exclamou Tereza, sempre efusiva.
Helena deu de ombros, sorrindo de leve.
— A Clara anda tão triste... só quis dar a ela uma chance de ser feliz. O resto, depende deles.
— Então que ele saiba aproveitar. — disse Tereza, piscando. — Agora, vamos jogar!
Clara saiu apressada pelo corredor, o coração aos pulos.
Andava tão rápido que acabou esbarrando em alguém.
— Ai! Me desculpe! — falou, virando-se.
Uma voz áspera respondeu:
— “Desculpe”? Você pisou no meu pé, garota! Anda olhando pra onde, hein?
Clara se espantou. A mulher à sua frente era toda luxo — o cabelo perfeitamente arrumado, roupas de grife, perfume marcante. Tinha ares de quem nunca foi contrariada na vida.
— Eu... eu realmente sinto muito. Foi descuido meu. — disse Clara, tentando manter a calma. — Me perdoe.
A outra a olhou de cima a baixo e deu um sorriso de desprezo.
— Sabe quanto custam os meus sapatos? Você acha que um “desculpe” resolve?
Clara engoliu seco.
— Senhorita, eu... sinto muito mesmo. O que a senhora quer que eu faça?

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