O último relatório do dia finalmente chega ao fim, e solto o ar, encostando as costas na cadeira.
Estou exausta de um jeito que vai além do físico.
São quase seis da tarde, e o andar já está mais vazio do que o normal, com apenas algumas luzes acesas nos cantos.
Me levanto, pego o relatório impresso e sigo até a sala de Dante.
A porta está entreaberta.
Paro antes de bater, porque a voz dele chega até mim antes que eu possa anunciar minha presença.
Ele está ao telefone, falando em italiano.
Não é o italiano que às vezes escapa em uma palavra ou outra. Nem o que ele usou comigo mais cedo, quando estava no limite.
É uma conversa inteira, rápida, com a naturalidade de quem nasceu ouvindo aquele idioma.
Paro à porta, sem querer interromper, e espero.
Pela fresta, vejo que ele está de pé diante da janela, com uma mão no bolso e a outra segurando o telefone.
Ouço “Milano”, “Consiglio”, “Ferretti” e várias outras palavras que não entendo. Mas não preciso entendê-las para compreender o tom.
Esse é um Dante que eu ainda não conhecia.
Não é o homem que vejo todos os dias aqui. Não é aquele que preparou café pela manhã e assistiu a um filme italiano comigo no sofá.
Nem o que me pegou sobre a mesa mais cedo, em um surto de possessividade que ainda insiste em não admitir.
Esse é o Dante de Milão.
O homem que comanda uma holding, responde a investidores e faz parte de um conselho que provavelmente não o questiona quando ele fala.
O homem que pertence a um mundo do qual ainda sei muito pouco.
Ele vira o rosto quase por acaso e me vê parada.
Por um segundo, apenas me encara. Depois, levanta dois dedos em um discreto gesto de “espere”.
Assinto e me encosto no batente da porta.
A conversa dura mais alguns minutos. Então, ele desliga a ligação e guarda o celular no bolso.
Sua expressão muda instantaneamente.
— Pode entrar.
Respiro fundo e me aproximo da mesa, estendendo o relatório.
— O último do dia. Já conferi tudo.
Ele pega as folhas e passa os olhos pelas primeiras linhas com a atenção que dedica a qualquer documento que passa pelas mãos dele.
— Obrigado.
— Se for só isso, estou indo embora — digo, dando um passo para trás.
— Está melhor? — pergunta, levantando os olhos do relatório.
O sorrisinho no canto da boca deixa claro a que ele está se referindo.
Mantenho a expressão mais neutra que consigo.
— Estou ótima. Foi um dia tranquilo.
— Tranquilo — repete devagar, como se estivesse saboreando a palavra.
— Tranquilíssimo — respondo, forçando um sorriso. — Boa noite, Sr. Ferretti.
Viro as costas antes que ele possa responder e saio da sala sem pressa, porque sair apressada seria admitir minha mentira.
Volto à minha mesa, pego minhas coisas e finalmente vou embora.

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