“Dante Ferretti”
As palavras dela permanecem no ar por alguns segundos.
Observo Amy parada do outro lado da bancada. Os dedos apertam a borda de mármore com força suficiente para embranquecer as articulações.
Passo a mão na nuca, tentando entender quais foram os detalhes que deixei passar para tudo chegar a esse ponto.
— Não sabia que o almoço ia incomodar você a esse ponto — digo, por fim. — Se soubesse, teria feito diferente.
Ela não responde. Apenas espera que eu continue.
— Quando a Valentina apareceu hoje e fez o convite, não pensei nela. Só pensei que você precisava almoçar e que não fazia sentido dispensá-la na porta.
Amy ergue os olhos para mim.
— Você precisava almoçar, e ela queria companhia. Pareceu simples.
— Foi simples para você — ela diz, baixo.
— Sim, foi. Porque Valentina é uma pessoa que trabalha comigo há anos, que não conhece praticamente ninguém aqui. E você é minha mulher, grávida. Achei que um almoço resolveria as duas coisas ao mesmo tempo.
Caminho devagar até o outro lado da bancada e paro perto dela.
— Em nenhum momento passou pela minha cabeça que fazer isso poderia te diminuir, muito menos machucar você, Amy.
Amy desvia o olhar para o copo de água.
— Porque, até cinco minutos atrás, eu nem sabia que existia um problema.
Ela volta a me encarar, prestes a falar, mas levanto a mão antes que consiga.
— Não estou dizendo que você não tinha motivos para se sentir assim. Estou dizendo que eu não tinha como reagir a um problema que eu nem sabia que existia.
Amy aperta os lábios.
— Para você, isso pode ter começado hoje, mas, para mim, começou antes — murmura, baixinho.
Assinto devagar.
— É justamente isso que estou entendendo agora — respondo, respirando fundo. — Desde quando isso está te incomodando?
Amy permanece em silêncio por alguns segundos.
Como se estivesse decidindo se vale a pena abrir uma porta que já passou tempo demais tentando manter fechada.
Por fim, solta o ar devagar.
— Desde que você a trouxe para cá.
— Você está falando da sexta-feira, Amy?
Ela hesita por um momento. Depois, assente lentamente.
Passo a mão pelo rosto, me dando conta de que, agora que ela está explicando, algumas coisas começam a fazer sentido.
A maneira como ela ficou distante ontem, no café da manhã. O silêncio. As respostas curtas.
Achei que ainda fosse o cansaço da semana. A gravidez. O evento.
Jamais imaginei que fosse por uma reunião feita às pressas.
Porque, para mim, Valentina é uma profissional competente que está comigo há anos e só.
Qualquer outra coisa que já tivemos ficou no passado, e eu nunca pensei que Amy enxergaria aquela visita de outra forma.

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