O reflexo no espelho parece mais real do que o próprio quarto.
Dante se aproxima devagar até parar atrás de mim.
Os olhos dele descem mais uma vez para a minha mão sobre a barriga antes de voltarem para o meu rosto refletido no espelho.
— Vai dar conta — diz, com a voz mais baixa do que o normal. — Porque você não está sozinha nisso.
Não é uma promessa romântica. É uma declaração. O tipo de coisa que ele diria sobre contratos e decisões corporativas.
Mas há algo no tom que faz meu coração acelerar de um jeito diferente.
— Há quanto tempo você estava me observando?
— Tempo suficiente.
Mordo o lábio, sentindo o rosto esquentar.
— Então, ouviu tudo.
Ele não responde, o que já é uma resposta.
Permaneço em silêncio por um momento, encarando o espelho e tentando ignorar o fato de que ele está perto demais e que eu ainda estou completamente nua.
Então, desço os olhos para a barriga.
— Eu só estava pensando no quanto tudo isso é… inacreditável — murmuro, baixinho. — Dois bebês.
Dante continua em silêncio atrás de mim.
— Duas vidas que são resultado de uma noite que deveria ter sido… só uma noite — continuo, sorrindo sem perceber. — Ainda não parece real.
Ele respira fundo atrás de mim e, pelo reflexo, vejo o maxilar dele travar por um instante antes de relaxar.
— Algumas coisas deixam de ser só uma noite no momento em que acontecem — diz, em voz baixa.
Engulo em seco.
— Isso foi profundo para alguém que normalmente resolve tudo com contratos e planilhas, Sr. Ferretti.
— Eu também sei reconhecer quando algo muda tudo o que vem depois.
Fico em silêncio por alguns segundos, encarando meu próprio reflexo, como se ele pudesse me oferecer uma resposta melhor do que a que já sinto.
Solto o ar devagar.
— Sabe… pensando bem agora — murmuro, mudando de assunto — você nem precisava ter colocado aquela cláusula de fidelidade.
Dante franze levemente o cenho, sem entender o que quero dizer.
Viro um pouco o rosto, ainda sem encará-lo.
— Em algumas semanas vou estar… assim. — Faço um gesto vago na direção da barriga. — Uma bola. Nenhum homem em sã consciência vai olhar duas vezes para mim.
A frase sai leve, quase como uma piada, mas o silêncio que vem depois não acompanha o mesmo tom.
A expressão dele muda imediatamente.
— Que homem te disse isso?
— Nenhum — respondo, dando de ombros. — É só lógica.
— É uma lógica idiota.
Me viro de frente para ele, surpresa com a rispidez.

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