Passo o batom, fecho a tampa e me olho uma última vez no espelho, sentindo minha mente girar.
Desde ontem, aquele beijo continua vivo na minha memória. O toque dele ainda parece queimar.
Para meu alívio, ou talvez não, depois que finalmente acalmei o coração, me vesti e saí para jantar, Dante não estava à mesa.
Estava no escritório, segundo Elena.
Metade de mim ficou aliviada. Já a outra metade…
— Agora ele vai fingir que não aconteceu — murmuro, escovando o cabelo. — Aposto que vai.
Quando finalmente paro de adiar a saída do quarto, encontro a cobertura silenciosa.
Elena está na cozinha, terminando de organizar uma bandeja.
— Bom dia, Elena.
— Bom dia, Amy.
— Dante já foi trabalhar? — pergunto, no tom mais indiferente que consigo.
— O Sr. Ferretti teve uma emergência e precisou ir para Milão durante a madrugada.
Ela coloca uma xícara na bandeja antes de se virar para mim.
— Mas deixou instruções claras para que isso não interferisse na sua rotina.
Fico olhando para ela por um instante.
— Entendi.
— Pode ir para a sala de jantar. Já estou…
— Não precisa — interrompo, me sentando à mesa no canto da cozinha. — Vou comer aqui mesmo. Não posso me atrasar.
Ela me observa por um segundo antes de assentir e voltar ao que estava fazendo.
Pouco depois, estou com a xícara de chá de gengibre entre as mãos, olhando para o nada enquanto meus pensamentos voam.
Emergência em Milão, justamente depois que aconteceu aquele beijo.
Seria coincidência? Talvez. Talvez ele só esteja resolvendo algo realmente importante.
Mas uma parte irritantemente insegura de mim não consegue evitar a pergunta.
E se ele só se afastou porque aquilo aconteceu?
Quando finalmente termino meu café da manhã forçado, pego minhas coisas, me despeço de Elena e entro no elevador.
Jake já está me esperando ao lado do carro, pontual como sempre.
— Bom dia, Jake — digo enquanto ele abre a porta.
— Bom dia, Amy.
Entro no carro e a viagem até a Whitmore acontece em um silêncio confortável. Fico olhando pela janela, vendo Chicago passar em tons de cinza, tentando não pensar em Dante.
Absolutamente não pensar em Dante.
Não pensar na mão dele na minha nuca, na maneira como me puxou pela cintura ou no beijo que me provoca um frio na barriga toda vez que lembro dele.
No fim, meus pensamentos alternam entre o beijo, a cadeira vazia no jantar, a viagem repentina para Milão e o beijo outra vez, até o carro finalmente parar.
— Obrigada, Jake — digo quando ele abre a porta.
Coloco a bolsa no ombro e saio rápido demais, tentando fazer meu corpo trabalhar antes que minha mente tenha tempo de acompanhá-lo.

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