“Dante Ferretti”
Existe uma diferença entre resolver um problema e aceitar que ele virou parte permanente da sua vida.
Eu resolvo problemas. É o que faço e o que sempre fiz.
O que aconteceu nos últimos dois dias ainda não sei classificar direito.
— Gêmeos — Victor diz, quebrando o silêncio do carro pela primeira vez desde que saímos do cartório. — Dessa vez, seu sobrinho te trouxe consequências… inesperadas.
Aperto o volante com mais força.
— Não foi só ele. Eu também deveria ter previsto melhor a situação.
Victor me olha de lado, mas não diz mais nada. Nem precisa, porque o silêncio que fica diz tudo: não sou um homem que perde o controle.
Exceto naquela noite.
Porque, sim, Dylan pode ter sua parcela de culpa. Se ele não tivesse traído Amy, eu nunca teria cruzado com ela naquela noite.
Hoje ela estaria vivendo a vida dela, longe de mim.
Ele pode não ter controlado os próprios instintos, mas eu também não controlei os meus.
Não sei como descrever o que sinto quando me lembro daquela noite. Mas, o que me assombra ainda mais é que, se voltasse no tempo… provavelmente faria tudo igual.
Meu maxilar trava com força.
— Os acionistas de Milão querem confirmar a reunião.
A voz de Victor me puxa de volta. Limpo a garganta.
— Já mandei Giulia desmarcar minha volta. Voltar para a Itália agora não é uma opção.
— Mas tem uma previsão?
— Não.
Porque, pela primeira vez em anos, não consigo projetar um prazo.
Não enquanto preciso lidar com toda essa merda que Dylan fez na empresa, e que me obrigou a voltar para Chicago.
Não enquanto houver dois filhos meus crescendo no corpo de uma mulher que nem de longe deveria ser minha.
O carro para em frente à empresa, e Victor desce primeiro. Já eu fico parado por um segundo, olhando para o prédio.
Odeio esse lugar. Sempre odiei.
A Whitmore & Co. foi o lado da família que herdei sem pedir. Agora carrego o peso de algo que não construí, mas que precisa ser salvo, graças às irresponsabilidades do meu sobrinho.
A Ferretti é minha. Todo contrato, aquisição e decisão que tomei se transformaram numa holding que opera em quatro países. Isso eu construí.
Isso aqui é obrigação.
Ajeito os punhos da camisa e entro. Já demorei demais.
A recepcionista nos cumprimenta. Os funcionários que cruzam o corredor endireitam a postura automaticamente conforme passamos.
Quando chegamos à minha sala, Victor fecha a porta, e vou direto para a mesa.
Abro o notebook e começo a verificar o que chegou enquanto eu resolvia pendências pessoais.
— Pode dispensar o homem que estava monitorando a Amy desde o hotel — digo, sem levantar os olhos da tela. — Os serviços dele não são mais necessários.
— Entendido. Já cuido disso.

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