Marcelo deu um passo à frente tentando se aproximar, a voz saiu mais baixa, quase suplicante.
— Milena, me ouve. Não aconteceu nada. Eu juro.
Milena virou o rosto, recusando encarar seus olhos. Aquela sensação de ter sido traída doía no fundo da sua alma. Respirou fundo, tentando manter o controle, mas o celular vibrou dentro da bolsa.
Milena hesitou por um segundo antes de pegar o aparelho, mas o toque era insistente demais para ignorar. O numero que apareceu na tela fez seu estômago revirar.
Ela já havia decorado aquele número, era Katherine mais uma vez.
Marcelo percebeu a mudança no rosto dela.
— O que foi?
Milena não respondeu, sentindo um frio na barriga antes mesmo de ver o que era. Assim que desbloqueou a tela a imagem carregou devagar demais.
Seus olhos arregalaram ao ver uma uma foto. Um recorte mal enquadrado, tirado de longe. Marcelo de perfil. Katherine muito próxima. O rosto inclinado. A distância entre eles inexistente o suficiente para sugerir um beijo que nunca aconteceu, mas que parecia real demais para ser ignorado.
A legenda abaixo foi o que realmente doeu.
“Nem sempre as verdades precisam ser ditas. Algumas só precisam ser vistas.”
O ar pareceu faltar. Milena fechou os olhos por um instante sentindo algo dentro dela se partir com um estalo seco. Ela guardou o celular com cuidado excessivo.
— Milena… — Marcelo se aproximou. — Katherine é louca.— Ele estendeu a mão antes de conseguir terminar a frase.— Eu posso provar que nada aconteceu... tenho as...
Milena recuou cortando sua fala.
— Não encosta em mim.— A voz saiu baixa, controlada. Mas havia algo irrecuperável ali.— Se fosse ao contrário… — ela ergueu o olhar pela primeira vez, e o encarou. — Você acreditaria em mim?
Ele abriu a boca, mas não conseguiu responder. Milena apertou a alça da bolsa. Os dedos tremiam levemente.
— Agora tudo faz sentido. O seu silêncio. A sua hesitação sempre que ela era assunto.
Ela virou-se para sair. Marcelo segurou seu braço.
— Espera. Por favor.
Milena puxou o braço de volta.
— Solta!
Eles se encararam por um segundo longo demais. Milena saiu, os passos apressados ecoando pelo corredor.
Marcelo correu chamando por ela, mas Milena já atravessava o saguão no meio dos outros alunos, com o olhar turvo e o coração em pedaços.
Gregory que estava saindo de carro, a viu chorando e abriu a porta. Assim que entrou eles partiram deixando-o para trás.
Marcelo ficou parado por alguns segundos depois que o carro saiu do campus. Ele observou os faróis desaparecerem na esquina, e foi aí que o peso caiu de uma vez só.
Ele passou a mão pelo rosto, respirou fundo e voltou para dentro do prédio com a cabeça baixa. O corredor parecia interminável.
Antes de entrar na sua sala, notou algo no chão, perto da mesa da secretária. Uma pequena caixinha amassada. Azul-clara. Simples. Ao lado, um papel dobrado e um envelope parcialmente amassado.

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