Marcelo ficou parado por um longo tempo, encarando a imagem borrada do ultrassom. Quatro pequenos pontos. Quatro vidas que carregavam seu sangue. O mundo inteiro pareceu ter desacelerado naquele momento.
Não era apenas a gravidez que o deixou imóvel. Era o silêncio dela. O medo escondido em cada olhar que ele não soube ler.
Ele fechou os olhos, respirou fundo. O peso da responsabilidade veio junto com algo que ele não sentia havia muito tempo: um tipo de alegria bruta, quase assustadora.
Não pensou duas vezes. Pegou as chaves do carro e foi para o estacionamento. Tudo ao redor parecia borrado, distante. Assim que entrou, ligou o motor e arrancou, ignorando qualquer cuidado excessivo.
Ele precisava garantir que o contrato, o passado ou sombras antigas, não chegaria perto dos filhos deles.
Enquanto o carro cortava as ruas molhadas, imagens vinham em sequência. Milena sentada em silêncio. O jeito como ela evitava falar do futuro. As mãos sempre protegendo o ventre.
Ele apertou o volante com raiva de si mesmo.
— Que tipo de médico que eu sou que não percebi isso? — murmurou sozinho, com um riso nervoso que não combinava com os olhos marejados.
Ele sempre quis ser pai. Não era um desejo recente, nem impulsivo. Era antigo, guardado com cuidado por medo de se tornar fraqueza.
Apesar de ter contratado Milena para gerar seu filho, ele nunca a pressionou a nada, pois seus planos nunca foram deixá-la ir. O que nunca imaginou era que esse sonho viria assim. Quatro de uma vez. A ideia não o assustava. O que o paralisava era ter descoberto em meio ao caos.
A chuva começou fina, quase discreta, acompanhando o ritmo acelerado do carro.
Na casa de Álvaro, Milena permanecia sentada no sofá, o celular apoiado na perna. A tela ainda acesa, a foto, mesmo ângulo cruel.
Ela girava o anel no dedo sem perceber. Um movimento automático, repetitivo. Cada volta parecia apertar mais o peito.
O ciúme trouxe com ele uma insegurança a mais. O problema não era só o contrato. Mesmo que ele sempre estivesse em sua mente. Eram as palavras de Katherine ecoando na cabeça dela como um aviso que nunca deixou de existir.
Milena fechou os olhos com força. As lágrimas caíam sem controle agora. Não queria acreditar na foto nem nas palavras venenosas, mas também não conseguia ignorá-las.
Ela levantou e abraçou seu próprio corpo, ficou parada na frente da janela, até algo chamou sua atenção.
Um carro parado em frente ao apartamento. O coração falhou uma batida ao reconhecê-lo. Marcelo estava encostado no carro, debaixo da chuva fina, o rosto inclinado, os olhos presos em algum ponto entre o chão e o segundo andar.
A água já molhava o cabelo dele, a roupa escura grudada ao corpo. Ele não se movia. Só respirava fundo, como se estivesse juntando coragem.
Milena sentiu o conflito crescer dentro do peito. Parte dela queria ficar onde estava, se proteger. A outra precisava ouvir suas explicações.
Sem fazer barulho, pegou o guarda-chuva e saiu.
Marcelo não percebeu quando ela se aproximou. Só sentiu quando a chuva deixou de cair diretamente sobre ele. Levantou o rosto no mesmo instante. Os olhares se cruzaram, por um segundo, nenhum dos dois falou nada.
— Milena...
Marcelo foi o primeiro a reagir. Instintivamente, segurou a cintura dela, como se tivesse medo de que ela desaparecesse se não tocasse. O toque foi firme, mas não possessivo. Era quase um pedido silencioso para que ela não fosse embora outra vez.
— O que faz aqui... na chuva?— ela perguntou num sussurro.
— Eu precisava te ver. Precisava entender... por que você não contou? — a voz dele saiu rouca. — Por que escondeu sua gravidez de mim?

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