Marcelo ergueu a taça de vinho, e levou aos lábios sem olhar para ela. Tomou um gole demorado. Indiferente. Superior. Inebriantemente frio. Para ele, aquela mulher parecia completamente inexistente.
Mas ela não desistiu. O olhar dela deslizou até Milena, lento, avaliando cada detalhe com crueldade. O sorriso curvou-se de forma mínima, perigosa.
— Parece que escolheu a dedo sua substituta… — sussurrou no ouvido de Marcelo, alto o bastante para Milena ouvir. — Minha amiga tem razão… você realmente gosta de provocá-la. E parece que agora decidiu brincar com fogo.
Milena sentiu o estômago revirar. O garfo parou no ar por um segundo antes de tocar o prato. Ela não entendeu o peso da frase, mas entendeu o ataque. O olhar daquela mulher não era curiosidade. Era algo mais pessoal.
Marcelo fechou os olhos por um segundo, respirou fundo. Um fundo que Milena nunca o tinha visto dar. O corpo dele ficou rígido, como aço prestes a se partir.
A mulher sorriu, satisfeita com a reação.
— Vai continuar fingindo que não me vê, Marcelo? — provocou, inclinando-se ainda mais. — Ou vai me dizer que sua obsessão é tanta que resolveu transformar a filha dela nisso aqui?
O silêncio caiu pesado sobre a mesa. Milena sentiu o sangue gelar ao ouvir aquela palavra. "Filha". Mas não teve tempo de questionar. Marcelo abriu os olhos ainda mais frios.
A voz saiu baixa, firme, precisa o bastante para fazer a mulher perder meio centímetro de postura.
— Eu vou dizer somente uma vez. — Ele se virou lentamente para ela. — Saia da minha frente agora, Marla e não apareça mais. — Cada palavra soava como lâmina. — Antes que eu pegue esse celular e, com uma única ligação, destrua tudo o que você tanto ama. Porque você e sua amiga sabem exatamente do que eu sou capaz. Não sabem?
O sorriso dela vacilou por um instante. Marla se recompôs rápido demais para quem não estava abalada. Endireitou o corpo, lançou um último olhar venenoso para Milena.
— Cuidado querida. Algumas coisas não são como parecem ser. E você... logo vai descobrir.— Marla falou e se afastou, os passos controlados, quase rastejando.
Milena só percebeu que estava prendendo a respiração quando o ar voltou de uma vez aos pulmões.
— O que ela quis… — começou, mas a voz falhou.
Marcelo se levantou antes que ela terminasse.
— Eu já volto. — disse, sem olhar para ela.
Ele se afastou em direção à saída lateral do restaurante. Milena ficou parada por alguns segundos, sentindo os olhares retomarem. As mãos tremiam ligeiramente. Ela se levantou também.
— Vou ao banheiro. — avisou ao garçom, mais para si mesma do que para qualquer outro.
O espelho do banheiro refletia um rosto pálido demais para um vestido tão vermelho. Milena apoiou as mãos na pia, respirou fundo, tentando organizar pensamentos que não faziam sentido.
— Filha dela... Obsessão... O que ela quis dizer com isso?— Murmurou. Nada se encaixava, mas tudo doía.
Do lado de fora, Marcelo acendeu um cigarro com mãos firmes demais para alguém que queria parecer calmo. Tragou fundo, sentindo a nicotina rasgar o peito. Ele detestava o cheiro do cigarro, mas naquele momento era a única coisa que o trazia de volta à realidade.
Quando os pensamentos começaram a se acalmar, celular vibrou no bolso. Ele olhou a tela e estranhou que era um número desconhecido.
— Alô?— disse firme. Houve um silêncio do outro lado por um momento.— Caramba! Se não quer falar, por que está ligando?
— Marcelo...— a voz feminina soou do outro lado arrastada e rouca. Marcelo olhou a tela por um instante.

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