DIAS ATUAIS – 30 de Julho — um ponto alto no futuro
POV/ Lully - Heloise
A exaustão já não era mais sono, era um delírio. Eu não dormia há dias. Os pesadelos com sombras no corredor haviam se tornado um luxo que eu não podia mais pagar; a realidade era infinitamente mais perversa. Os agiotas do morro pararam de mandar mensagens. Agora, eles mandavam o presságio da morte.
Eles já haviam marcado meu território: o chute no portão de casa de madrugada, o ombro prensado contra o muro áspero do beco, o uniforme manchado pela lama das ameaças deles. A cada esquina, o cheiro de metal e sangue parecia me seguir como um cão sarnento, pronto para morder.
Trabalhei o dia todo no automático, um fantasma habitando um corpo que não me pertencia mais. Joyce e Jaqueline cochichavam, mas as vozes delas eram apenas ruído branco. O que realmente gritava era o celular vibrando no meu bolso a cada cinco minutos. Vinte mil. Trinta mil. O juro do medo. Abri a última mensagem e meu mundo inclinou. Uma foto da fachada da faculdade da Maitê. Minha irmã. O único pedaço de céu que ainda me restava naquele inferno.
O prazo era hoje. O sol estava se pondo e eu não tinha nada além de desespero. Será que o meu fim seria igual ao do meu pai? Ele também achou que teria tempo. Ele também achou que eles teriam piedade. No fim a divída foi paga com sangue porque ele não tinha como quitar com dinheiro. E agora, o cobrador estava vindo buscar o que sobrou de nós.
Às cinco da tarde. Entrei no elevador; o reflexo no espelho era o de um animal acuado. As portas se abriram no térreo. Não pensei. Corri. Não olhei para trás quando esbarrei em alguém, deixando um baque seco para trás. A imagem da Maitê, vulnerável no pit-dog perto da faculdade, era a única coisa que me impulsionava. Eu precisava chegar em casa, tentar pensar, tentar fugir. Tentar fazer alguma coisa.
Mas não havia fuga.
Na porta da Moretti Tech, um carro preto. Ele estava ali. Parado, silencioso, como um predador à espreita. Meu estômago embrulhou, o terror me congelou por um segundo. Não tinha para onde correr na rua aberta. Meu olhar varreu o cenário: do lado da avenida movimentada, o esqueleto de um prédio abandonado e, ao lado, o estacionamento subterrâneo.
Corri para o estacionamento. Os passos ecoavam no concreto; cada batida do meu tênis era um grito silencioso. Entreguei minha alma àquela escuridão. Eles chegaram logo atrás de mim. Três deles, altos, grandes e com um semblante que causava muito medo.
Eles me cercaram. Três vultos exalando o cheiro de cigarro e maldade pura. Fui empurrada contra a parede fria do subterrâneo e o impacto expulsou o ar dos meus pulmões com uma violência que me deixou zonza, mas foi a mão gorda apertando meu pescoço que me fez ver estrelas.
— Onde está o dinheiro, gordinha? — o mais alto rosnou. O hálito dele era uma mistura de carne podre e nicotina.
— Eu já disse... dia cinco! Eu comecei na Moretti, eu vou ter o dinheiro! — tentei gritar, mas minha voz era um fiapo de desespero, espremida pela pressão dos dedos dele na minha traqueia.
Ele riu, um som seco que me deu calafrios e fez os pelos da minha nuca se eriçarem. Ele trocou um olhar os outros cúmplices e me jogou no chão como se eu fosse um fardo de lixo. Meus joelhos bateram no concreto; ouvi o som do tecido rasgando e senti a pele esfolar. A dor aguda subiu pelas minhas pernas, latejando em sintonia com a pulsação acelerada no meu pescoço.
— Dia cinco é tarde demais. Os juros não esperam — ele disse, chutando minha bolsa para longe. O barulho do couro arrastando no chão pareceu um trovão. — Mas a gente pensou numa solução. Você nos deve trezentos mil, certo? Se for uma boa garota e deixar a gente se divertir com você... quem sabe a gente não possa esperar um pouquinho mais?
— Não... por favor... eu vou pagar! — Meu estômago revirou, uma bile amarga subiu pela garganta.
Eles gargalharam, um som que ecoou pelas colunas de mármore como uma sentença de morte.
— Ela acha que ainda tem escolha. Vamos nos divertir e depois vender os órgãos dela no mercado negro. Um rim, um pedaço do fígado... essas coisas valem uma grana preta. Talvez dê para pagar sua dívida sem precisar encostar na sua irmãzinha por enquanto. — o homem mais alto e moreno sugeriu enquanto olhava para mim.
O terror paralisou meus membros. Eu não consegui me mexer enquanto ele se agachava e segurava meu queixo com uma força que ameaçava deslocar minha mandíbula. O outro se aproximou do lado e, com um solavanco, rasgou minha blusa. O som do pano cedendo foi um estalo que fez os botões da camisa voarem e revelar meu sutiã azul.
— Eu vou pagar! Eu juro! — As lágrimas lavavam meu rosto. Eu tentei me cobrir, juntando as duas partes da camisa, mas as mãos do homem moreno agarraram as minhas e puxou mais a o tecido camisa fazendo todos os botões estourarem.
— Não, para por favor. — tentei implorar
— Cala a boca, puta! — O tapa veio com tudo. O impacto fez meu rosto virar bruscamente e o gosto metálico de sangue inundou minha boca. O zumbido no meu ouvido era ensurdecedor causando a ssensação de agulhas entrando no meu cerebro.
Demorei alguns segundos para entender onde eu estava. Tentei me debater, mas o homem gordo me ergueu pelo pescoço, suspendendo meu corpo. O ar não vinha. Comecei a babar, o mundo começou a girar, em um borrão cinzento, a falta de ar começou a me afogar.
Outras mãos subiram e terminaram de destruir minha camisa. Senti o bojo do sutiã ser puxado para baixo, expondo meu seio esquerdo.
De novo não. Por favor, de novo não.
A memória do meu pai me atacou como um veneno injetado na veia. O cheiro de álcool, o peso sufocante do corpo dele... perdi o sentido da realidade.
— Olha que lindo — um deles zombou, enquanto sentia o toque dos dedos calejados na minha pele.
Em um surto de adrenalina, chutei o que me segurava entrepernas dele com toda a minha força. Ele urrou, um som animal, mas não me soltou. Eles me agarraram e me jogaram em cima do capô de um carro. O alarme disparou — bi-bi-bi-bi — um som estridente que se misturou aos meus gritos roucos.
Senti mãos subirem pelas minhas coxas, e puxarem o tecido da minha calcinha que cedeu com um som ríspido.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprada Pelo Mafioso Obcecado:Contrato Com a Virgem