POV/ Killian
17/07- Sábado
O Clube Erotique é um dos lugares onde o mundo deixa de ser uma linha reta e cinzenta. Para o meu cérebro é no excesso de estímulos o grave do som que faz o peito vibrar, o calor úmido das peles suadas, o cheiro pungente de perfume e luxúria que desperta a biologia do meu corpo e eu me lembro de que sou um homem.
Ver os homens babarem pelas mulheres no palco, observar os corpos dançando quase nus sob as luzes estroboscópicas... isso gera uma sobrecarga.
O Tálamo está lesionado, mas meus instintos primitivos não foram apagados. O tesão é uma frequência que ainda sinto e como sinto... Uma reação nervosa que ignora o meu vazio emocional e faz o sangue bombear onde deve.
A festa hoje é à fantasia. Eu odeio fantasias. Por isso, vim fantasiado de mim mesmo: terno italiano sob medida e apenas uma máscara veneziana preta, cobrindo metade do meu rosto.
Ethan está em algum lugar, provavelmente perdendo o juízo com alguma dançarina. Eu estou aqui pelos negócios, mas também pelo ambiente.
Puxo o relógio de bolso. A corrente é pesada, feita de elos de prata que lembram um terço. Mandei forjar assim para carregar o meu único amuleto: o nó de prata que recebi. O metal frio contra os meus dedos dispara um sinal que a lógica não explica. Dizem que não sinto culpa, mas quando olho para essa peça, algo se retorce. É o meu elo com o meu anjo perdido.
Meu anjo deve estar por aí.
Hoje é 17 de julho. Sábado.
Quinze anos. Exatos quinze anos desde que o mundo parou de fazer sentido para mim.
Eu ainda estou aqui, Lully. E eu ainda estou procurando por você.
Bebo o Bourbon de uma vez. Sinto o líquido rasgar a garganta e esquentar o rosto. E peço outra dose.
Estou no bar Entediado.
Ethan continua circulando passou por mim e disse. "Sorria para os acionistas". O tipo de merda que alguém que não tem o cérebro lesionado diz.
Alessandra também deve estar por aí em algum lugar. Talvez devesse procurá-la.
Alguém esbarra em mim de leve, mas o suficiente para derramar o líquido do meu copo.
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