POV/ Killian
Entramos nos portões da mansão. É uma construção imponente, inspirada nas vilas da Toscana, com arcos de pedra e uma piscina que reflete o luar como um espelho de prata. Esta casa foi o cenário da minha infância e o mausoléu da minha sanidade.
Foi para cá que os soldados da facção me trouxeram quando saí do hospital, quinze anos atrás. Foi aqui que amadureci ao lado de Ethan, sob o olhar vigilante e cruel de Dante. Eu odeio aquele homem, mas não posso negar que ele me moldou. Foi nestes jardins que aprendi a lutar, a atirar e a entender que o mundo não tem espaço para os fracos.
Aos dezessete, fui mandado para a Itália. Era hora de aprender os costumes da "família" lá terminei o ensino médio e cursei faculdade sob as regras rígidas do meu clã paterno. Foram anos de exílio necessário. Voltei ao Brasil há cinco anos, aos vinte e quatro, pronto para assumir o controle e transformar a Moretti Tech no império que é hoje.
Estou com vinte e nove anos agora. O tempo passou, mas os fantasmas desta casa continuam os mesmos. Alessandra caminha ao meu lado, falando sobre o futuro, enquanto meus pensamentos ainda estão presos no balcão daquele clube.
Assim que cruzo a porta principal, Mercedes está lá. Ela é o meu porto seguro, a mulher que me ensinou que a honra vale mais que o sentimento.
— Bentornato, figlio mio — ela diz, a voz suave carregando o sotaque das nossas raízes. (Bem-vindo de volta, meu filho).
— Grazie, Mercedes. È stata uma lunga notte — respondo, e sinto meus ombros relaxarem apenas um milímetro. (Obrigado, Mercedes. Foi uma noite longa).
Mercedes desvia o olhar para Alessandra, que está logo atrás de mim com um sorriso forçado. O olhar da velha governanta é afiado. Ela sabe que Alessandra é apenas uma peça de xadrez no tabuleiro do Conselho.
— Até hoje você está com ela, Killian? — Mercedes pergunta em italiano, sem se importar se a outra entende. — Non ha anima, questo pezzo di ghiaccio. (Ela não tem alma, esse pedaço de gelo).
— Non sono ancora riuscito a liberarmene, cara — respondo no mesmo idioma, dando um beijo na testa de Mercedes. (Ainda não consegui me livrar dela, querida). — Vou tomar um banho. Estou exausto.
Alessandra tenta se aproximar para um beijo, mas eu me esquivo.
— Vá para o quarto, Alessandra. Já subo.
O meu celular vibra no bolso. É uma mensagem de Noah, meu secretário no lado limpo da Moretti Tech.
Noah: Segunda-feira tem entrevista com as novas candidatas a secretária. Preciso de você na sala para a seleção final.
Reviro os olhos. Eu não tenho paciência para RH.
Killian: Não. Você resolve isso e pronto. Escolha as mais eficientes e que não me deem dor de cabeça. Mas eu passo aí para assinar os relatórios.
Subo a escadaria de mármore ouvindo o eco dos meus próprios passos. Entro no meu quarto, um santuário de minimalismo e sombras. Alessandra já está no banho; ouço o som da água batendo no box.
Tiro o terno, peça por peça, e jogo no cesto de roupa suja. Encaro o espelho. O homem no reflexo é impecável. Músculos definidos, ombros largos, várias cicatrizes espalhadas pelo corpo, esse é o preço de não reagir a dor, minha mandíbula marcada. Eu sou bonito, eu sei disso. Mas, para mim, meu corpo é apenas uma máquina que precisa de manutenção constante.
Puxo o relógio de bolso. Abro a gaveta embutida ao lado do espelho e coloco a peça ali, com um cuidado que não dedico a mais nada nesta casa. O metal frio do Nó de Prata contra os meus dedos é a única coisa que me acalma.
Alessandra sai do box e aparece atrás de mim. Ela está nua, a pele úmida brilhando sob a luz dicroica. O corpo dela é o padrão que o Conselho aprova: magra, seios fartos, pele bronzeada e sem marcas. Uma escultura de porcelana.


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